Vendas de espumantes da Miolo duplicam no final do ano

21/12/2015

Os meses de outubro, novembro e dezembro são responsáveis pela venda de 50% da produção de espumantesTerra Nova Brut, Demi-sec e Rosé de Noirda Miolo do Vale do São Francisco. Anualmente,são produzidas 2 milhões de garrafasda linha Terra Nova que é carro-chefe da marca na Bahia e já acumula 40 premiações nacionais e internacionais.


De um lado, a paisagem esturricada, de cor cinza, da caatinga; do outro, as videiras exuberantes e seus cachos de uva sanguinolentos, ou de um verde parecido com os olhos de rosinha, a musa de luiz Gonzaga na magistral “Asa Branca”. Tudo isso se vê nos parreirais do Vale do São Francisco, um dos importantes polos vitivinícola do Brasil, com seus vinhos finos, espumantes, suco de uva, brandy e uvas de mesa do tipo “exportação”.


O Vale do São Francisco é a única região do mundo a produzir três safras de uvas, e o mais baixo paralelo do mundo – latitude 9ºS, longitude 40ºW e altitude ao redor de 350 m – a produzir vinho.


“O nosso vinho é a expressão do nosso terroir, ensolarado, com leveza e juventude. Não fica a dever a nenhum dos espumantes das adegas europeias”, explica a enóloga da miolo Wine Group, a paulista Eloiza Teixeira, há quatro meses em Juazeiro, depois de se formar na UTAD, Universidade de Trás-os-montes e Alto Douro, em Vila real, Portugal.


O Vale é a principal região vitivinícola tropical brasileira, com cerca de 10,5 mil ha de vinhedos, empregando diretamente 30 mil pessoas, como, por exemplo, Francisca Hélia, moradora de Santana do Sobrado e que, desde 1988, colhe uvas no Vale, região que detém cerca de 20% da produção nacional de vinho e é responsável por 99% da uva de mesa exportada pelo Brasil.


“Quando o gerente do banco me disse que tinha uma boa fazenda na Bahia, desdenhei. Ele fez tanta pressão, que acabei vindo, em 2001, e não mais saí. Começamos com 20 hectares e que se multiplicaram para 200 hectares de plantações de uvas. Eram 10 mil garrafas/ano e, hoje, produzimos 4 milhões de litros/ano de um excelente vinho”, diz o gaúcho de Bento Gonçalves, Eurico Benedetti, do Conselho Administrativo da Terranova, a marca da miolo Wine Group para os vinhos produzidos nos 700 hectares da Fazenda ouro Verde, no município baiano de Casa Nova, a 68 km de Juazeiro.


Além da linha Terra Nova, na Bahia, a miolo Wine Group possui cinco projetos vinícolas espalhados pelo Brasil e pela América latina: Vinícola miolo (Vale dos Vinhedos, RS), Fortaleza do Seival Vineyards (Campanha, RS), RAR (Campos de Cima da Serra, RS), lovara Vinhos Finos (Serra Gaúcha, RS) e Viasul (Chile).


Depois de investir R$ 30 milhões na Bahia, os planos de expansão da companhia para a unidade de Casa Nova são ousados. Até 2020, a produção de vinhos, espumantes e destilados deverá crescer 40%, passando dos atuais 4 milhões de litros/ano para 5,6 milhões de litros/ano, enquanto o faturamento deverá subir 50%: dos atuais r$ 28 milhões anuais para R$ 42 milhões. Das quatro autoclaves do projeto inicial, no início dos anos 2000, a vinícola estará com 50 em 2016.


Terra árida, vinhos finos


Graças às três mil horas de sol intenso e à cultura irrigada com as águas do Velho Chico, as uvas do Vale do São Francisco são saudáveis e doces. Para se transformar em vinho, contudo, não basta um milagre. Controle de qualidade e uma boa dose de tecnologia são fundamentais.


Nos vinhos, a chegada das uvas ocorre por gravidade, com processo de maceração cuidadosa que preserva ao máximo a integridade delas, sob temperatura controlada. O envelhecimento é feito em tanques de inox, enquanto outros descansam em barricas de carvalho.


O grande nome da casa é o Testardi – que, em italiano, significa “teimoso” – feito com uvas syrah, maceradas a frio por 5 dias, em tanque de aço inoxidável e que descem por gravidade para barricas de carvalho, onde fermentam por 15 dias. Depois, as uvas são prensadas e o vinho amadurece em barricas novas de carvalho francês por 12 meses. Em 2012, o júri internacional da Expovinis – o maior evento vinícola da América latina – premiou o Testardi como o melhor tinto nacional.


Além dele, a cave de Casa Nova produz também o vinho licoroso doce Terranova late Harvest, ideal para acompanhar a sobremesa. outro produto supremo das terras baianas é o brandy miolo Imperial, um destilado de vinho envelhecido durante 10 anos em barris de carvalho. Para os apreciadores, chamar o brandy de “conhaque” é uma heresia: a bebida conhecida por esse nome no Brasil não vem da uva e sim da cana-de-açúcar.


“Os carros-chefe da Miolo na Bahia são os espumantes Terranova Brut, Demi-sec e rosé de Noir, elaborados pelo processo charmat em autoclaves com temperatura controlada. Já o Terranova moscatel é elaborado em autoclaves, porém pelo processo Asti. São espumantes jovens, produzidos e engarrafados imediatamente para poder preservar as características naturais do produto”, explica Flávio Durante, gerente da miolo Wine Group.


os reservatórios feitos em aço inoxidável têm de ser refrigerados, devido ao calor nordestino, e o formato varia de acordo com a bebida. Enquanto os de vinho têm o topo e o fundo retos, os de espumante precisam ser arredondados para suportar a pressão, uma vez que o gás carbônico liberado faz parte da bebida e tem de ser mantido dentro do tanque.


Segundo Durante, a linha baiana Terra Nova já acumula 40 premiações nacionais e internacionais, em países como Itália, França, Eslovênia, Argentina, Inglaterra, Estados Unidos e China.


Aposta no suco de uva


Outra frente de ampliação das atividades da companhia é a produção e engarrafamento do suco de uva, que já foi iniciado com a marca Sunny Days. Serão investidos R$ 14 milhões para a implantação de 50 ha de vinhedos de uvas americanas e de uma unidade industrial de processamento de suco de uva, com produção de 2 milhões de litros/ano e faturamento estimado de R$ 15 milhões anualmente.


Enquanto a nova unidade de produção não fica pronta, o Sunny Days é engarrafado e embalado na Fazenda Grand Valle, a pouco quilômetros de distância da miolo. “Considerando que processaremos e teremos colheita durante 10 meses ao ano, vamos processar 50.000 litros/dia, ou 200 mil litros/mês, de um suco de uva incomparável, mais encorpado, mais saboroso”, aposta Benedetti, estalando os lábios ao degustar o produto baiano depois de beber o similar gaúcho.


Para Benedetti, que se autodenomina enófilo em oposição à enólogo – “aquele que só vê defeitos no vinho” – as condições climáticas do Vale do São Francisco não se repetem em nenhum lugar do mundo. São 12 a 13 horas de sol por dia, irrigação tecnologicamente controlada, o que garante uma fruta quase perfeita. “É um clima quase parecido com o deserto, com baixíssima umidade – cerca de 15% – o que impede a propagação de fungos e bactérias”, explica.


“O mercado de suco de uva é muito promissor, assim como já é realidade nosso mercado de espumantes, muito adequado para o clima tropical do Brasil, que pede uma bebida frisante, refrescante”, diz o gaúcho Benedetti, descendente de italianos da pequena cidade de Lovara, na província de Vicenza.


Botticelli, o pioneiro


Foi em 1985 que lançou-se o primeiro vinho do Vale do São Francisco, chamado Vinhas da Milano, atualmente Botticelli. O enólogo Ineldo Tedesco testou, em 1984, na Maison Forestier, uvas do Vale do São Francisco, comprovando a excelência da qualidade das frutas da região, depois de ter adquirido, junto com sua mulher, a enóloga Izanete Bianchetti, uma propriedade em Lagoa Grande-PE. Plantou uvas de mesa e, dois anos depois, uvas viníferas. Em 1998, o casal lançou o primeiro vinho, um Cabernet Sauvignon, com rótulo da Bianchetti.

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