PIB da Bahia deve crescer 6% e superar os R$ 143 bilhões

04/06/2010


Gerson Brasil e Alessandra Nascimento







A Bahia deve crescer 4,5% nos próximos quatro anos e o PIB em 2010 pode ultrapassar os R$ 143 bilhões, com perspectiva de geração de mais de 90 mil empregos formais. Os números consolidam a economia da Bahia no cenário nacional. As informações são do diretor-geral da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia, SEI, Geraldo Reis. Em entrevista exclusiva à Tribuna da Bahia ele revelou que, no acumulado deste ano, o ICMS arrecadado foi de R$ 3,78 bilhões, representando um incremento de 15,80% em comparação com 2009.







Para Reis, a Ferrovia Oeste Leste e o Porto Sul serão grandes vias de integração no território baiano, estabelecendo importantes conexões econômicas com o Centro Oeste. Na visão do diretor, a BR-324 tende a ser um corredor de oferta de serviços e há uma tendência das cidades médias se modernizarem a exemplo de Juazeiro, Vitória da Conquista, Paulo Afonso, Ilhéus, Itabuna e Irecê, se fortalecendo como grandes impulsionadoras do crescimento do Estado. Na outra ponta, apenas dois programas sociais, benefício de prestação continuada, que é destinado a deficientes e idosos e beneficia 280 mil pessoas, e o bolsa família (1,580 milhão de pessoas )injetam na economia R$ 3 bi, são quase 2% do PIB da Bahia


Tribuna da Bahia - No Brasil, especula-se que o crescimento seja de 6% a 7%. E a Bahia deve crescer quanto?

Geraldo Reis -
Em primeiro lugar, devemos ter cuidado nas comparações entre a Bahia e o Brasil até porque a Bahia está inserida na taxa nacional, mas de qualquer sorte a economia baiana teve um posicionamento surpreendente em 2009. Crescemos 1,7% quando o nacional foi 0,2%. Só no primeiro trimestre deste ano a Bahia deve crescer 8,5%. Anualizado, deveremos ter taxa de 6%. Temos feito uma leitura otimista da economia baiana porque os números permitem. O PIB deve superar os R$ 143 bilhões. Nos próximos quatro anos poderemos crescer em média 4,5% ao ano se não houver nenhuma situação adversa no cenário internacional. Nossa expectativa de geração de empregos é de 90 mil empregos formais. Desde o último trimestre do ano passado, quando o PIB foi de 7,2%, nossas taxas de crescimento vêm em ritmo acelerado. A construção civil decerto terá taxas expressivas. O agronegócio também está cercado de boas perspectivas para este ano. Devemos ter safra recorde de grãos em 2010, com 6,8 milhões de toneladas, um incremento de 15,6%. Tal perspectiva é corroborada pelos resultados setoriais dos últimos meses. Os principais indicadores apontam forte aceleração da economia em 2010. O comércio atingiu em março a maior taxa da série, com 19%, segundos dados do IBGE. No trimestre, o crescimento acumulado é de 15%. Este tem sido um dos setores mais dinâmicos da economia. A produção industrial também vem em recuperação desde outubro do ano passado. O setor alcançou 13,7% de incremento neste início de ano.


Tribuna - Por que, apesar dos indicadores de crescimento, a taxa de desemprego se mantém em dois dígitos?

Geraldo -
Nem sempre há uma relação direta entre crescimento econômico e geração de empregos. No Brasil, as taxas sempre foram mais altas que na Europa, mas agora essa situação começa a se inverter. Observamos mudanças estruturais na socioeconomia da região metropolitana de Salvador. Alguns anos atrás, a taxa de desemprego atingiu 30%, em junho de 2003, fazendo este índice ser considerado como pico da série histórica, e agora a taxa está em 19%.


Tribuna - Quais são os gargalos que impedem uma queda acentuada do desemprego em Salvador e Região?

Geraldo -
A questão do mercado informal no Brasil é histórica. O que ocorre no Brasil é uma política de esforço do estado de bem-estar social. O mercado de trabalho tem tido aquecimento seguido de formalização. A política do salário mínimo adotada pelo governo Lula auxilia no poder de compra. O modelo adotado busca promover desenvolvimento econômico com distribuição da renda alavancando a economia. O Brasil hoje tem um grande mercado consumidor, mas há 30 anos ele só era composto por 30% da população. Hoje temos a nova classe média. Pessoas das classes C e D que foram inseridas.


Tribuna - O setor industrial foi um dos mais afetados pela crise. Qual é a avaliação sobre este segmento hoje?

Geraldo -
Realmente ele foi o mais afetado em função do perfil da indústria baiana, que é produtora majoritária de bens intermediários e consequentemente com forte dependência do mercado externo. Mas o que se observa em 2010 é que a indústria baiana voltou a produzir, exportar e gerar empregos. Desde outubro de 2009, a produção industrial vem se recuperando gradativamente. Este ano, até março, já acumula um crescimento de 13,7%. O nível de pessoal ocupado na indústria baiana também está em expansão, segundo a Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salários, do IBGE, que registrou acréscimo de 4,2% no mês de março comparando-se com o mesmo mês de 2009.


Tribuna - As exportações baianas já chegaram ao patamar antes da crise?

Geraldo -
O comércio exterior também volta a se movimentar este ano, apesar dos países europeus ainda sofrerem alguns reveses com a crise financeira. Nossa corrente de comércio atingiu US$ 4,8 bilhões, entre janeiro e abril, 63% maior que no mesmo período do ano passado, e superavitária em US$ 576 milhões. Se olharmos os outros grandes estados nordestinos, Ceará e Pernambuco, eles vêm apresentando déficit na balança comercial. Os Estados Unidos voltam a ser nosso principal parceiro comercial, comprando principalmente produtos químicos, petróleo, pneus, celulose e calçados. A China passou neste quadrimestre ao segundo lugar, com a compra de soja, couros e peles, celulose e cobre. E o terceiro colocado entre nossos principais compradores é a Argentina, com químicos, derivados de cacau, cobre e automóveis. Se considerarmos os blocos econômicos, temos uma divisão percentualmente equilibrada, com a União Europeia participando com 24%, o grupo Nafta com 23%, a Ásia com 22% e o Mercosul ocupando a quarta colocação, responsável por 10% das nossas exportações. Como a nossa pauta de exportações está pautada em Camaçari e nos petroquímicos, e isso representa grande dependência ao mercado externo, a balança comercial sofreu bastante, mas a indústria de transformação deve voltar a gerar empregos. O aumento das importações ocorre nacionalmente. Inclusive para bens de capitais. Mantemos uma recuperação no comércio exterior ainda que a pauta seja reduzida.


Tribuna - A arrecadação fiscal também está equilibrada?

Geraldo -
Todo esse dinamismo, claro, afeta de forma positiva as finanças do Estado. No acumulado deste ano, o ICMS arrecadado foi de R$ 3,78 bilhões, um incremento de 15,80% em comparação com 2009. Nossos cálculos apontam um possível incremento em torno de 9% na arrecadação de ICMS este ano.


Tribuna - Salvador nos últimos anos tem experimentado um crescimento exponencial. Como isso afeta toda a estrutura macroeconômica da cidade?

Geraldo -
Nos últimos anos, acompanhamos o crescimento de Salvador com o surgimento de novos shoppings, novos bairros. A Paralela é a última grande fronteira para a construção civil. Salvador cresceu e vem ganhando grau de complexidade na oferta de seus serviços. Há uma nova elite e uma nova classe média presentes. A renda media está em torno de R$ 1.070. Trata-se de uma renda relativamente baixa, mas as políticas de transferência de renda têm gerado grandes impactos na Bahia. O bolsa família, que é muito criticado, atende 1,580 milhão de pessoas, representando injeção de R$ 1,6 bi em 2009. O benefício de prestação continuada que é destinado a deficientes e idosos representa 280 mil beneficiados no estado e totaliza R$ 1,3 billhão. Esses dois benefícios totalizam aportes de R$ 3 bi e são quase 2% do PIB da Bahia. O efeito maior deles está no interior, aquecendo comércio nas pequenas regiões. Muitas transformações ainda não são tão visíveis, mas elas estão acontecendo.


Tribuna - Qual será o impacto da Ferrovia Oeste/ Leste e o Porto Sul?

Geraldo -
A Ferrovia Oeste/ Leste e o Porto Sul serão muito importantes como vias de integração no território baiano. Vamos estabelecer conexões econômicas com o Centro-Oeste. A BR-324 tende a ser um corredor de oferta de serviços. Há uma tendência das cidades médias se modernizarem. Juazeiro, Vitória da Conquista, Paulo Afonso, Ilhéus, Itabuna e Irecê. Há transformações acontecendo e é necessária uma nova reflexão para minimizar o fosso social. Os grandes hospitais que estão sendo implantados e a inserção de faculdades com o oferecimento de ensino superior e as escolas técnicas, isso modifica drasticamente. A atração de mestres, doutores, pesquisadores e empreendedores impulsionam o desenvolvimento destas cidades. Representam forte impacto nas finanças. A Bahia vive um processo de transição importante, de avanços sociais, estratégia de desenvolvimento em equilíbrio atraindo investimentos e empreendimentos, com modernização, projetos de mobilidade urbana.


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