Renascimento naval

22/11/2010

Embora nenhum poço de petróleo na camada do pré-sal tenha sido descoberto na Bahia, o estado é um dos grandes beneficiados pela descoberta das gigantescas reservas de óleo localizadas a milhares de metro de profundidade no mar. Explica-se; com a decisão de adotar uma politica de produção nacional de plataformas e navios-sonda, com uso majoritário de campo ventes locais, o governo terminou por recriar a indústria naval brasileira, inativa há muitas anos.

Diante da futura demanda, a Bahia planejou o renascimento de sua própria indústria naval. O estado, que já construluplataformas nopassado, está trabalhando nelas

de novo. Segundo o coordenador do Comitê de Petróleo e Gás da Federação das Inchlstrias do Estado da Bahia (Fieb), Eduardo Rappel, para que isso ocorresse, foi preciso que o governo priorizasse o assunto. "O papel dos governos é prover infraestrutura e brigar com outros estados por investimentos", afirma Rappel.

É justamente o que está acontecendo na Bahia, relata o secretário extraordinário da Indústria Naval e Portuária, Roberto Benjamin. "A Bahia está voltando ao jogo no setor". Ele aponta para os inves - timentos já concretizados e os programados para o estado nos próximos anos, O canteiro de São Roque do Paraguaçu, em Maragogipe, está em pleno funcionamento, após ganhar contratos para fazer as plataformas P-59 e P-60 da Perrobras. O empreendimento emprega hoje, na fase de operação, 1,5 mil trabalhadores -durante as obras de revitaliza - çáo e construção, foram mais de 2 mil funcionários.

Além do canteiro de São Roque, estão sendo construidos outros quatro canteiros na mesma região, para a produção de módulos para plataformas off -shore (as diferentes partes e equipamentos que compõem as unidades marítimas de produção da Petrobras). Os novos empreendimentos, um investimento conjunto de cerca de R$ 200 milhões, serão erguidos pelas empresas baianas GDK e Belov Engenharia, pela mineira Multitek e a paulista Niplan. De acordo com o secretário Benjamin, o canteiro da GDK, que terá 124 mil metros quadrados, conta com a vantagem de que, além de construir os módulos, poderá integrá-los aos navios-sonda da Petrobras, pois seu cais tem comprimento e calado suficiente para receber navios de grande porte.

EMPREGOS O secretário aponta ainda para a geração de empregos que as obras trarão. Segundo ele, trabalharão, aproximadamente, 1,2 mil pessoas na construção dos canteiros e cerca de 1 mil na operação de cada um deles quando estiverem prontos. Uma das preocupações das empresas é a qualificação da mão de obra para a tarefa. "A Bahia tem uma forte tradição no ramo metal-mecânico, além disso, temos gente treinada no Polo Petroquímico e na refinaria", afirma Benjamin. Rappel, da Fieb, concorda. "Muitos baianos foram trabalhar no Sul e Sudeste quando a indústria naval daqui definhou. Agora a tendén cia é que eles voltem", opina.

O secretário afirma que o emprego de mão de obra local será crucial para o sucesso do renascimento da indústria naval baiana. Mesmo tendo gente treinada, será preciso investir em mais qualificação, o que demanda tempo e dinheiro. "Nossa dificuldade está na quantidade e no cronograma", diz Benjamin. Ele afirma que a secretaria já está coordenando um esforço para criar um programa de qualificação, que contará com o suporte de projetos e entidades

já existentes, como o Programa de Mobilização da Indústria de Petróleo e Gás Natural (Promimp) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Benjamin garante que o curso já está sendo formulado, e será oferecido já no primeiro semestre do ano que vem, justamente quando devem começar as obras dos canteiros.

"O Senai busca suprir as necessidades industriais do estado, se esforçando para atender as demanda do mercado", pontua o diretor regional do Senai na Bahia, Gustavo Sales. "Hoje, por exemplo, investimos em cursos para a indústria de construção civil, assim como a indústria naval", diz.

ESTALEIRO Os trabalhadores também poderão ser aproveitados nas obras do estaleiro Enseada do Paraguaçu, uma sociedade entre os grupos baianos Odebrecht e OAS e a carioca UTC. O projeto conta com uma vantagem sobre os concorrentes do resto do país: é o único com a licença ambiental já concedida pelo Ibama, uma exigència da Petrobras. A concorrência para a construção dos navios-sonda

da estatal será aberta no dia 17 de novembro. Caso o Enseada saia vitorioso, o investimento pode chegar a RS 2 bilhões e a geração de empregos diretos a 3,5 mil na construção e 4 a 5 mil na operação. Segundo o secretário, quando o estaleiro estiver em operação, juntamente com os cinco canteiros, a Bahia terá de fato um polo naval, com geração de aproxi - madamente 15 mil empregos diretos, computando as fases de construção e operação dos

empreendimentos.

Um ponto de dúvida é a questão dos contratos. Apesar dos investimentos milionários, nenhum dos quatro canteiros tem cont rato fechado. O governo e as empresas não estão preocupados com isso, no entanto. Para Benjamin, a de -manda é certa, assim como a participação baiana na construção das plataformas e suas partes. A própria Petrobras confirma essa possibilidade. "É certo que a Bahia ganhe contratos. O mais lógico, do ponto de vista de logística e custos, é que esses equipamentos sejam feitos aqui", afirma o gerente geral de Exploração e Produção da estatal no estado, Antônio Rivas.




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