Agenda Bahia: clones tolerantes à “vassoura” e preços mais altos animam produtor
De uma produção anual entre 5,5 e 6 milhões de sacos de 60 quilos, o volume despencou para até 770 mil sacos
Aos poucos, a zona cacaueira da Bahia começa a recuperar parte do que perdeu a partir dos anos 90, quando a doença vassoura-de-bruxa entrou nos cacauais do sul do estado, causando uma devastação física e social sem precedentes na região.
De uma produção anual entre 5,5 e 6 milhões de sacos de 60 quilos, o volume despencou para até 770 mil sacos. Calcula-se que mais de 250 mil trabalhadores rurais ficaram desempregados, passando a viver de serviços precários nas cidades das redondezas.
O quadro, entretanto, começa a se mostrar mais animador. A safra encerrada em abril passado contabilizou 2,556 milhões de sacos. Foi a melhor dos últimos 15 anos. Este ano, o “temporão” – o cacau produzido no período de maio a setembro – está chegando perto de 1,2 milhões de sacos. A safra principal, que começa em outubro e tradicionalmente é menor que a “temporã”, é estimada em cerca de 900 mil sacos.
Embora isso ainda seja pouco em relação ao período áureo da cultura, há, pelo menos, dois fatores de otimismo. Em primeiro lugar, a vassoura-de-bruxa não é mais a grande preocupação do produtor. Apesar de não haver cura para a doença, o trabalho desenvolvido em todos esses anos nos laboratórios da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) colocou à disposição de quem produz, através de uma biofábrica e de viveiros desenvolvidos nas próprias fazendas, clones de cacaueiros tolerantes à “vassoura”.
O diretor técnico-científico da Ceplac, Manfred Müller, diz que o órgão já lançou 39 clones tolerantes à doença, resultantes de anos de pesquisas com cacaueiros resistentes detectados no sul da Bahia, na Amazônia e em países da América Central.
Preços atraentes
Outro fator positivo é o preço. Desde 2008, as cotações estão muito mais altas. Na Bolsa de Mercadorias de Nova York, o cacau tem se mantido em torno de US$ 3 mil a tonelada, uma cotação considerada excelente, apesar da desvalorização do dólar frente ao real. Anos atrás já esteve em US$ 800. Em Ilhéus, o preço tem oscilado entre R$ 75 e R$ 80 por arroba (15 quilos).
“Mas a recuperação ainda depende de um gargalo, que é o endividamento do produtor. Por causa disso, muitos deles não têm acesso a dinheiro novo e não podem cuidar das lavouras”, comenta Muller. Ninguém tem a conta exata, mas a estimativa é que a dívida da cacauicultura baiana chegue a R$ 1 bilhão, a maior parte resultante de tentativas frustradas de controle da "vassoura". A questão começa a ser contornada pelo chamado PAC do cacau.
Atualmente, a Ceplac se prepara para lançar um pacote tecnológico mais avançado, que prevê um controle integrado incluindo a poda dos galhos atacados, a utilização de clones geneticamente melhorados, o uso de fungicidas e de controle biológico, através do Tricovab. Este é um produto desenvolvido pelos cientistas do órgão, a partir de um fungo (o trichoderma stromaticum) que é antagônico ao da vassoura. Aplicado nos galhos atacados pela doença, depois da poda, o produto impede que os esporos sejam levados pelo ar e contaminem as plantações.
O consultor Thomas Hartmann acha que, aos poucos, a produção do estado está se recuperando. Segundo ele, a "vassoura-de-bruxa" não é mais uma grande preocupação para o produtor, pois está provado que é possível conviver com a doença. Ele diz que as fazendas estão sendo mais cuidadas, os tratos culturais têm melhorado, o que deve continuar, principalmente se os preços se mantiverem remunerativos.