Heróis da Revolta dos Búzios são homenageados em Salvador

18/12/2015

Uma bandeira em homenagem aos heróis da Revolta dos Búzios – Manoel Faustino, Luís Gonzaga, João de Deus e Lucas Dantas – foi hasteada na manhã desta sexta-feira (18), na Praça da Piedade, em Salvador, ao som do Ilê Aiyê e do Olodum, com intervenção do cantor Lazzo Matumbi. O ato contou com a participação do governador Rui Costa, dos secretários estaduais de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Vera Lúcia Barbosa, e da Cultura (Secult), Jorge Portugal, entre outras autoridades e militantes do movimento negro.

 

A iniciativa integra as ações da Década Internacional Afrodescendente na Bahia, no eixo reconhecimento, conforme informou a secretária Vera Lúcia Barbosa na cerimônia. “O governo cumpre, desta forma, um importante papel de reparação a este processo relevante nos capítulos da história da Bahia, que teve quatro líderes negros como protagonistas, perseguidos e mortos em consequência da trajetória de enfrentamento à escravatura e ao sistema político da época”, afirmou.

 

Para o governador, quem conhece a história evita repetir erros de discriminação. “Como a história sempre é escrita pelos dominadores, lideranças expressivas que lutaram pela liberdade e pela igualdade entre homens e mulheres ficaram esquecidas e não tiveram relevância nos livros de história ao longo de séculos. Estamos reescrevendo a história para que o povo conheça de onde nós viemos, o que nós somos e o que nós queremos construir, a partir do que nossos ancestrais fizeram no passado”.

 

A instalação da réplica da bandeira do movimento, também conhecido como Revolta dos Alfaiates ou Conjuração Baiana, é resultado de uma articulação da Sepromi, Secult e Secretaria de Comunição (Secom), com apoio das organizações sociais do Ilê Aiyê e Olodum.

 

Para o presidente do último bloco afro, João Jorge, o objeto simbólico vai gerar curiosidade de quem passa pelo local e, consequentemente, do estudo sobre o movimento e heróis nacionais. “Precisamos aparecer. Queremos que os jovens questionem quem são esses homens aqui”, disse, referindo-se aos bustos dos líderes da Revolta que estão no mesmo local. Ele também sugeriu a nomeação de praças, ruas, entre outros espaços em homenagem aos protagonistas negros.

 

O  governador anunciou que as homenagens vão continuar. “Eu tenho conversado com algumas pessoas que constroem o movimento negro e nós vamos batizar algumas estações do metrô com o nome de pessoas da luta pela liberdade”. 

 

Reparação

 

Makota Valdina comemorou o empenho da Bahia pela reparação. “A Bahia tem feito, sim , por uma reparação. Mas não se pode esquecer que essa reparação é de séculos. Não se pode consertar o que foi danificado durante séculos em doze, vinte, cinquenta ou cem anos. Mas que estamos no passo certo, não tenho dúvida. Eu nunca vi uma Bahia como a dos últimos anos, e eu tenho 72. A gente viu mudanças e eu não vou aceitar que tirem aquilo que conquistamos até agora, que é um marco para o muito mais que a gente ainda precisa conquistar”. 

 

Ela também lembrou a participação das mulheres negras no movimento e a importância de também reconhecê-las, “pois não teve nenhuma revolta do tipo em que elas não estivessem presentes”. Para o Antônio Carlos (Vovô), presidente do Ilê, ainda há muito que ser feito, mas a Bahia é um Estado que se destaca nos esforços para a reparação. “Pouca gente conhece a história desses heróis da Revolta dos Búzios. A reparação que queremos é liberdade, igualdade e respeito. E cada grupo que surge, organização, cada ação dessas é uma alternativa para que nós mostremos que o povo negro não é diferente, tem direitos e deveres como todo mundo”.

 

Segundo o ator Dody Só, presente na atividade, “essa é uma das formas mais positivas de trabalhar com as ações afirmativas, trazendo para a cena os indivíduos que conseguiram dar grandes contribuições ao país, além daqueles que tiveram por usurpação o seu direito de ir e vir. É colocar em prática a lei 10.639, ao vivo, para que cada afrodescendente tenha possibilidade de se reconhecer e espelhar”.

 

O movimento e seus mártires

 

O termo Revolta dos Alfaiates se deve ao grande número desses profissionais que participaram do movimento e ao fato de dois dos quatro executados como líderes da conspiração exercer a profissão. A designação Revolta dos Búzios foi atribuída porque alguns revoltosos usavam um búzio (concha de molusco em forma de espiral) preso a uma pulseira, para facilitar a identificação entre si. 

 

O grande marco do movimento foi a articulação de grupos mais pobres da população baiana para defender propostas que realmente os representassem. Trata-se de uma das maiores manifestações populares comandadas por negros, mulatos e mestiços em prol da democracia, dos direitos humanos e igualdade de raça e de gênero para todos os brasileiros.

 

Além de ser emancipacionista, a Revolta dos Búzios defendeu importantes mudanças sociais e políticas na sociedade. Por terem promovido o movimento, que após muitas lutas avançou e contribuiu para a abolição da escravatura, os quatro líderes negros foram mortos no dia 8 de novembro de 1799. Em 2011, após decreto presidencial, eles passaram a ser considerados oficialmente heróis nacionais.

 

Em reconhecimento à importância da luta que empreenderam em prol da liberdade e da cidadania, os bustos dos quatro heróis se encontram, atualmente, na Praça da Piedade, lugar onde foram enforcados e esquartejados. 

 

Outras ações

Em paralelo, o Governo do Estado, através das Secretarias de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), da Educação (SEC) e da Cultura (Secult), está trabalhando para viabilizar a construção de um monumento na Via Expressa, projetado pelos artistas plásticos Ray Vianna e João Teixeira, com recursos na ordem de R$ 300 mil. A obra, selecionada através de edital, propõe interferir visualmente no cotidiano da cidade, contribuindo para construção do imaginário social sobre essa etapa da história da Bahia.

Sepromi e Secom