24/11/2019
Foi realizada nesta sexta (22) e sábado (23), em Salvador, a décima terceira edição da Alvorada dos Ojás, iniciativa do Coletivo de Entidades Negras (CEN) que integra a agenda do Novembro Negro da Bahia. Lideranças de religiões de matriz africana e adeptos iniciaram, na Casa de Oxumarê, os rituais para amarração dos tecidos sagrados dos cultos afro-brasileiros (os ojás) em diversas árvores da capital baiana.
O principal objetivo da atividade, promovida há 12 anos, é pedir respeito à liberdade religiosa e equilíbrio entre as pessoas, valorizando a diversidade étnico-racial, de pensamento e agregando o povo negro.
Neste ano, a Alvorada dos Ojás trouxe como tema ‘Oxumarê, Bessem e Angorô’, divindades representadas, cada uma na sua nação do candomblé, pelo arco-íris e pela cobra. São elas, segundo a tradição afro-brasileira, as divindades que conduzem as transformações. Por isso, foi escolhido para 2019 o lema “Transformação por um Brasil sem racismo, miséria e fome”.
O evento teve início com um ritual público de sacralização dos ojás no Ilê Axé Oxumarê Araká Ogodo, conhecido publicamente como Casa de Oxumarê. O babalorixá Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê, liderou a cerimônia interreligiosa, que teve como convidadas lideranças des diversas outras religiões.
Na sequência, a amarração dos ojás foi feita em árvores do Dique do Tororó, do Campo Grande, Corredor da Vitória, Pelourinho, Suburbana e no Largo do Santo Antônio Além do Carmo.
O processo durou toda a madrugada e aconteceu de forma coletiva, com voluntários que se locomovem em vans e carros particulares. O grupo de parceiros da atividade incluiu o afoxé Filhos de Gandhy, o artista plástico e fundador do Cortejo Afro, Alberto Pitta, responsável pela pintura dos 2 mil metros de tecidos com elementos ligados ao candomblé.
A Alvorada dos Ojás contou com o apoio das secretarias da Cultura (Secult), de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), da Bahiatursa (Superintendência de Fomento ao Turismo do Estado da Bahia), dentre outras parcerias.
Para a coordenadora-geral do CEN e Ekedy da Casa de Oxumarê, Iraildes Andrade, a Alvorada dos Ojás de 2019 é especialmente significativa.
Para a coordenadora-geral do CEN e Ekedy da Casa de Oxumarê, Iraildes Andrade, a Alvorada dos Ojás de 2019 é especialmente significativa.
“Queremos apenas que as pessoas se respeitem, respeitem as escolhas das outras, as opções religiosas, as opções políticas, e que o ódio seja banido do nosso convívio. Pedimos a Oxumarê que promova a transformação do nosso país, por um projeto que caiba todas as pessoas, sem opressão, sem machismo, sem misoginia, sem racismo e sem ódio religioso”, defendeu Iraildes, explicando a importância da atividade.
“A Alvorada dos Ojás já é consolidada como uma importante agenda de luta e afirmação das religiões de matriz africana. Importante iniciativa que contribui para o debate sobre o enfrentamento ao racismo religioso na Bahia, estado mais negro fora de África”, ressaltou a titular da Sepromi, Fabya Reis, lembrando dos serviços ofertados e campanhas desenvolvidas no campo do combate ao ódio religioso.
Ogã da Casa de Oxumarê, o historiador e ativista do movimento negro, Marcos Rezende, também analisa a simbologia da Alvorada dos Ojás para as religiões afro-brasileiras. “O ojá é o traje que cobre o ori (a cabeça). Já a árvore é um elemento sagrado da natureza, no mito fundador da nossa religião e garantidora da nossa existência. ‘Ossi ewé, ossi Orixá’ (sem folha não existe Orixá). Sem elas não existiria vida. É sobre a garantia da vida dos fiéis do candomblé que desejamos tratar, é sobre o direito constitucional que as pessoas têm de cultuar a sua religião, a sua fé, ou até, de não possuir religião alguma. Sabemos que o racismo religioso nos atinge porque essas religiões são oriundas da África”, explica Marcos Rezende.