Biblioteca do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra é aberta à população

17/12/2015

Com a inauguração da Biblioteca Luiza Mahin e Luiz Gama, na tarde desta quinta-feira (17), quem for ao Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (CDCN), no Pelourinho, poderá ter acesso a uma variedade de publicações na temática racial.  O equipamento estará aberto ao público de segunda a sexta-feira, das 9 às 12h e das 14 às 18h.  A entrega da unidade, que leva o nome de personalidades negras reconhecidas pela luta contra o sistema escravocrata, foi realizada ao som da cantora Savannah Lima.

 

 “Temos que criar condições para atrair, principalmente, os jovens negros a esse espaço, onde poderão pesquisar e obter informações necessárias à luta pela garantia dos seus direitos”, disse o conselheiro do segmento irmandade, Walter Crispim, que encontrou no local um dos livros que marcou sua trajetória – Boi Multicor, de autoria do educador Jorge Conceição. Ele ressaltou ainda a necessidade de divulgar, cuidar e ampliar o acervo.   Os interessados em doar livros relacionados podem entrar em contato pelo (71) 3117-1553.

 

A representante da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia (OAB-BA) no CDCN, Cléia Costa, parabenizou a iniciativa e anunciou que será uma das frequentadoras. “A biblioteca é sempre uma porta aberta para o conhecimento, a troca, e especialmente, se tratando de uma com temática racial”. Para a conselheira, o equipamento possibilita a revisão de conceitos adquiridos na escola, “onde o livro didático limitou-se, por muito tempo, a visão do dominador. O negro passa, então, a se ver na história, não apenas como escravizado, mas contribuinte da formação da cultura e identidade brasileira”, disse.

 

Costa também pontuou a importância da “biblioteca viva”, que vai até a população, assim como rodas de conversa, seminários e debates sobre obras literárias. Segundo a secretária-executiva do Conselho, Ádile Reis, a unidade conta com livros em diversas vertentes, a exemplo de religião de matriz africana, relações étnico-raciais, política, gênero, cultura afro, povos e comunidades tradicionais, e literatura negra, além de periódicos, CDs e DVDs.


Também participaram da cerimônia outros integrantes da Sepromi, como o assessor especial Ailton Ferreira e  os coordenadores de Promoção da Igualdade Racial, Sérgio São Bernardo, da Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, Nairobi Aguiar, e do Centro de Referência Nelson Mandela, Walmir França.


 

Reconhecimento

 

Conhecido como advogado da população escravizada, o soteropolitano Luiz Gama não conseguiu se matricular no curso de Direito e enfrentou hostilidade de professores e alunos por ser negro, mas persistiu como ouvinte das aulas. Conseguiu uma carta de advogado e com o conhecimento adquirido, defendeu e libertou na Justiça mais de 500 escravizados. Também foi poeta, jornalista e patrono da cadeira nº 15 da Academia Paulista de Letras.

 

Recentemente, a Comissão de  Constituição e Justiça e de Cidadania, da Câmara de Deputados, aprovou dois projetos de lei, de autoria do parlamentar federal Orlando Silva, que prestam homenagem ao advogado. O primeiro inscreve o nome de Luiz Gama no Livro dos Heróis da Pátria. O segundo o declara como Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. No último dia 3 de novembro, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também homenageou Gama, reconhecendo-o como advogado.

 

Mãe de Luiz Gama e quituteira de profissão, Mahin esteve envolvida na Revolta dos Malês (1835) e na Sabinada (1837-1838). Nasceu em Costa Mina, na África, e foi trazida para o Brasil como escravizada. Descoberta, a militante foi perseguida, até fugir para o Rio de Janeiro, onde foi encontrada, detida e, possivelmente, deportada para Angola. Não existe, entretanto, nenhum documento que comprove essa informação.

 

O Conselho

 

O CDCN é um órgão colegiado da Sepromi, de caráter consultivo, formado por 21 conselheiros, sendo 6 do poder público e 15 da sociedade civil, com igual número de suplentes. Tem por finalidade a promoção do desenvolvimento social, cultural, político e econômico da população negra mediante a análise, formulação, proposição, avaliação e acompanhamento de programas e políticas públicas de enfrentamento às desigualdades étnico-raciais.

 

O Conselho funciona como uma espécie de parlamento temático onde os problemas mais atuais que afetam a comunidade negra da Bahia são discutidos e de onde saem proposições para a resolução dos mesmos. A maior participação da sociedade civil é uma garantia de amplitude, autenticidade e foco nas reais demandas da população negra.