"Não esperávamos que chegasse a esse nível, nem era a nossa pretensão, mas tínhamos a certeza do que queríamos: um bloco de negros, dirigido por negros, para negros", disse Vovô do Ilê, durante seminário realizado nesta sexta-feira (13), a respeito do primeiro bloco afro do Brasil. A atividade no Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, em Salvador, fez parte da programação do Novembro Negro.
Já o diretor do bloco, Arisio (Osvalrisio do Espírito Santo), abordou as contribuições da organização para a afirmação da identidade negra e o enfrentamento ao racismo. “Juntamos o povo negro e começamos a dizer, através da música - esta melhor que qualquer discurso porque repetimos e internalizamos - quem somos nós, ou seja, negros e negras lindos, black power, gerando mudança de comportamento nas pessoas”.
O encontro contou ainda com a participação de Arany Santana, que hoje está à frente do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI), da Secretaria de Cultura (Secult), mas também fez parte da diretoria da entidade. Ela falou da estética da mulher negra antes e depois da fundação do bloco. “Quem ajudou a afirmar minha identidade e de tantas outras mulheres foi o Ilê, com suas letras, temas e ações”, disse Arany, destacando o concurso da Beleza Negra.
“A criança já nasce com o desejo de ser, um dia, a Deusa do Ébano, que não levanta apenas a autoestima, mas contribui para o empoderamento. Muitas vencedoras são, hoje, doutoras”, explicou. A diretora da CCPI lembrou que antigamente os tecidos coloridos eram importados, caros, o que dificultava o acesso do segmento, que usava mais roupas brancas e em tom pastel. Também não existia maquiagem apropriada.
Ações sociais
A matriarca do bloco, Mãe Hilda, foi referenciada durante todo o encontro por seus ensinamentos e dedicação na formação educacional da comunidade. Além da escola que leva o seu nome, voltada para alfabetização até a 4ª série, o Ilê realiza outras ações de inclusão social. Há unidade para aprendizado de canto, dança e percussão, direcionada a pessoas de 8 a 17 anos, e espaço para cursos profissionalizantes como informática, design e costura industrial.
Dos projetos culturais, vale destacar o Festival da Música, a Festa da Beleza Negra, o Novembro Azeviche e a Semana de Mãe Preta. Entre os objetivos alcançados na trajetória, conforme anunciado por Arisio, estão valorização do cidadão, maior consciência crítica da comunidade negra e construção do centro cultural Senzala do Barro Preto.
O Mais Belo dos Belos, como é conhecido, nasceu no Curuzu, Liberdade, e homenageará, no próximo Carnaval, o Recôncavo Baiano. Completou 42 anos de fundação no início deste mês e tem como missão preservar e expandir a cultura negra na sociedade, visando agregar todos os afrodescendentes na luta contra o racismo e demais formas de discriminação.
O Centro - Vinculado à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), o Centro de Referência Nelson Mandela é uma das portas de entrada dos casos acompanhados pela Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa. Segundo o coordenador, Walmir França, a unidade dispõe de biblioteca especializada e espaço para formações, que geralmente acontecem nas sextas-feiras, além do atendimento ao público vítima de discriminação racial ou violência motivada por questões ligadas às religiões. Também participou da atividade o assessor especial da Sepromi, Ailton Ferreira.