O terceiro dia da Mostra de Cinema Negro foi marcado, neste sábado (29), por um bate-papo com a diretora baiana do ‘O Dia de Jerusa’, Viviane Ferreira, após exibição do curta-metragem na sala Walter da Silveira, situada na Biblioteca Pública dos Barris, em Salvador. A produção que integrou o Festival de Cannes, em maio deste ano na França, se passa no bairro de Bexiga, em São Paulo, onde Jerusa (Léa Garcia) recebe, no dia de seu aniversário, Silvia (Débora Marçal), uma pesquisadora de opinião sobre sabão em pó.
A entrevista, prevista para durar 15 minutos, se transforma numa conversa entre duas desconhecidas. Em vez de responder ‘quantos filhos tem’, Jerusa prefere lembrar o gosto do garoto pelo capim-santo e proporciona à visitante, em seu sobrado envelhecido, uma tarde inusitada repleta de memórias. Apesar do estranhamento inicial, a jovem Silvia descobre que passou no vestibular e acaba festejando, junto à Jerusa, por mais um ano de vida da anfitriã.
“A história é um cruzamento das narrativas de mulheres negras que passaram pela minha vida, e que me faz refletir e construir o meu caminhar”, explicou Viviane. Certo dia, ao sair para o trabalho, em São Paulo, a diretora encontrou no ponto de ônibus uma senhora, que blasfemava por estar sozinha no dia do seu aniversário e esquecida pelos seus. “Ela chorava, levantou e foi embora. Aquilo para mim foi muito forte e não esqueci mais”, completou.
Outra influência foi uma moradora de Bexiga, que contou sobre a migração de sua família para esta localidade na fuga da escravidão. “Ela falou do seu carinho por aquele lugar, que representava a liberdade, e mesmo que a especulação imobiliária estivesse selvagem naquele momento, não conseguiriam tirar ela da casa. Ainda que não reformasse o sobrado, poderia desabar, mas ela permaneceria naquele solo pela vida inteira”, lembrou Ferreira.
Identificação
O paulista Renato Carneiro, que mora na Bahia há quase 10 anos, se identificou com a história. “Quando a gente vai ao cinema – digo nós, negros – é muito difícil a gente se vê. Quando existe um filme que fale sobre a gente, na grande maioria das vezes trata de aspectos estereotipados, como criminalidade e miséria. Sinto falta dos aspectos humanos – sensibilidade, desejos e sonhos, e quando isso acontece, sou tocado. Esse curta tem 20 minutos, mas tempo que a mão transpira. Lembrei da minha casa e dos santos que estão lá”.
“A gente se enxerga demais no curta. A jovem recebe dois grandes presentes no mesmo dia – o de passar no vestibular, afirmando a nossa presença na universidade, e de ter o privilégio de estar com uma mulher negra de 77 anos, destacando Bexiga como um território nosso, que foi quilombo e depois apropriado por uma comunidade italiana”, disse a coordenadora da Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, Vilma Reis.
Novembro Negro
Presente na atividade, o secretário estadual de Promoção da Igualdade Racial, Raimundo Nascimento, elogiou a produção e destacou que a exibição dos documentários, com histórias de vida de mulheres e homens negros, faz parte da campanha Novembro Negro, por meio da qual foi possível “aprofundar os debates sobre enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa em todos os cantos deste Estado”.
Realizada pela Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), em parceria com a Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), a primeira Mostra de Cinema Negro tem o objetivo de preservar a memória do patrimônio cultural afro-brasileiro e africano.
Para o professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Nilo Cerqueira, ações como esta precisam ser ampliadas. “A iniciativa é muito positiva, pois fomentar espaços como este municia negros e negras a respeito desta luta, que é cotidiana. Esta é uma produção negra, feita por diretora e roteirista negra, com atores negros e uma dinâmica a partir das nossas reflexões. O curta é inspirador, pois nos motiva”.
No mesmo dia, foi apresentado ainda o filme “Atlântico Negro – Na Rota dos Orixás”, que faz uma viagem no espaço e no tempo, em busca das origens africanas da cultura brasileira. No domingo (30) e na segunda-feira (1º), às 15h, serão exibidos, respectivamente, Serra do Queimadão e Igi Obá Nile – Memórias de Mãe Raidalva, também seguidos de debates.
Confira as próximas exibições da Mostra:
