Legado de Lélia Gonzalez é destaque na programação do Julho das Pretas

01/09/2015

lelia

“A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista”. A frase é da educadora e ativista do movimento negro e feminista, Lélia Gonzalez, cujo legado foi foco de encontro nesta sexta-feira (24), no Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, em Salvador.

Após exibição de documentário sobre a intelectual de destaque, como parte das mobilizações do Julho das Pretas, foi realizado um debate. Participaram a pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), nas áreas de democracia, movimentos sociais e participação política, Deise Queiroz, e a militante da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), Luana Soares.

A socióloga Soraia Silva, que visitou o equipamento social da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) pela primeira vez, acredita que “debates como o de hoje são cruciais para uma necessária conscientização sobre a atuação do movimento negro e o papel da mulher negra nesse processo, reconhecendo sua importância para as lutas sociais, de gênero e de raça”.

Trajetória

“Me identifico com a trajetória de Lélia, que avançou no processo de ‘tornar-se negra’ na universidade”, confessou Luana Soares. A militante da Conen explicou, ainda, que o ‘enegrecimento’ de Gonzalez não foi fácil, começando a se enxergar “enquanto mulher negra e entender o ônus e bônus disso” a partir do embate com a família branca do seu primeiro esposo.

Mas foi essa mesma Lélia que, ao reconhecer sua ancestralidade, fez “alguns enfrentamentos para que diversas mulheres pudessem estar, hoje, em espaços de poder, tanto dentro do movimento negro, que negava questões específicas de gênero e sexualidade, quanto na academia”, afirmou a palestrante.

Além de lutar em prol da população negra, a ativista defendeu os direitos LGBT e a inclusão das heroínas negras nas pautas das instituições de ensino. “Como fica a cabeça da nova geração sem saber que a nossa história não se resume a ser escravizados, que temos ancestralidade guerreira, de organização de impérios, de poderio econômico e militar?”, questionou Luana.

Ela também ocupou cargos públicos, mesmo sem apoio ou reconhecimento da comunidade negra, e se filiou a partidos políticos. “Lélia trouxe o sentimento de que podemos ocupar todos os ambientes sem abrir mão do discurso racial e da disputa de sociedade que a gente quer”.

Na área da cultura, fez parte da escola de samba Quilombo e tinha relações com o Ilê Aiyê, entendendo organizações do tipo como essenciais no movimento de luta. “A nossa cultura é essencialmente negra, já dizia ela, temos contribuições europeias e não o contrário”, finalizou a palestrante.

A ativista foi, ainda, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado e do Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras, no Rio de Janeiro, onde morreu em 1994. Para a estudante de enfermagem, Cintia Oliveira, que participou do evento e também não se reconhecia enquanto negra, iniciativas como essa precisam ser ampliadas para divulgar outras referências do segmento no Brasil.

Mais informações sobre a sua trajetória AQUI

Unidade

A pesquisadora Deise Queiroz contou sobre a influência de Lélia na sociedade e abordou a realização, em 2009, na capital baiana, do 1º Encontro das Negras Jovens Feministas, com a participação de 120 mulheres de diversos estados. “Ela foi uma mulher à frente de seu tempo que previu a globalização. Precisamos usar a internet como ferramenta para nos aproximarmos”, aconselhou a pesquisadora.

A produção audiovisual exibida, com o nome Lélia Gonzalez: O Feminismo Negro no Palco da História, integra projeto da Fundação Banco do Brasil, em parceria com a Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh) e Brasilcap. Na ocasião, foram sorteados livro e dvd dessa iniciativa.

Julho das Pretas

O Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha é celebrado no dia 25 de julho. Para marcar a data, dando visibilidade às lutas e avanços do segmento, o Governo do Estado, por meio da Sepromi, participa das mobilizações do ‘Julho das Pretas’, com diversas ações ao longo do mês. Instituições da sociedade civil e outros órgãos do governo baiano também realizam atividades, unindo esforços para garantia de direitos e construção de estratégias na área.

Na oportunidade, a mediadora do debate, Fátima Magalhães, do Centro de Referência, aproveitou para anunciar as próximas agendas da pasta no projeto, como o seminário Mulher Negra e Empreendedorismo, no dia 29 deste mês, às 14h, no Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (CDCN). A programação completa está disponível AQUI. Iara de Moura também se sentiu contemplada com a atividade. “Discutir racismo, intolerância religiosa e tudo o que nos atinge é um passo fundamental para organizar e enfrentar essas questões. Por isso, espaços como esse são de extrema importância”, disse.

CLIQUE AQUI PARA CONFERIR AS FOTOS DO EVENTO