Cerca de 300 pessoas participaram, ontem, da entrega de um amalá de cinco mil quiabos a Xangô, na pedra que carrega o mesmo nome do orixá, em Cajazeiras X. O ato foi precedido por uma caminhada, que teve início por volta das 9h, na Pronaica, campo de futebol localizado no mesmo bairro.
Caracterizados de branco, adeptos e simpatizantes do candomblé acompanharam um minitrio por uma distância de 800 metros, em direção à pedra de Xangô e ao som de canções dos cultos afro.
A entrega da oferenda ocorre há cinco anos e é organizada por Mãe Branca, do terreiro Ilê Axé Obá Babá Xére. Segundo ela, a manifestação teve ainda mais vigor este ano devido ao ato criminoso de intolerância religiosa praticado recentemente no local.
Intolerância
Em novembro, foram depositados 200 quilos de sal grosso no espaço, que também já havia sido pichado. A depredação foi registrada no Centro de Referência Nelson Mandela, vinculado à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do estado (Sepromi), e está sob investigação policial.
“Este ato representa a luta contra a intolerância religiosa. Todos os religiosos deveriam se unir, se portar com respeito e entender que Deus é um só, independentemente de como é reverenciado”, disse a ialorixá do Ilê Axé Obá Babá Xére. Ainda conforme a líder religiosa, o ato representa a força dos ancestrais do candomblé perante aos seus filhos. ”Esta força é o que nos une. Mostramos resistência para continuar o nosso culto, que é assegurado por lei”, afirmou a líder religiosa.
O ogã e secretário geral do Partido Popular de Liberdade de Expressão Afro Brasil, Valdo Lumumba, resaltou que, uma vez tombado, o espaço pode movimentar também o turismo religioso. “O rei de Oyo [Nigéria], Oba Adeyemi III ficou admirado com este altar de Xangô, quando veio a Salvador em julho. O espaço poderia ter passado despercebido, se essas ações não fossem realizadas”, opinou.
Tombamento
O titular da Sepromi, Raimundo Nascimento, disse que o órgão tem se articulado com instituições estaduais e municipais para a criação de um parque de preservação ambiental e tombamento do monumento.
“Reconhecemos a importância deste lugar para as religiões de matriz africana e estamos lutando pela preservação. Hoje, também estamos aqui para garantir a liberdade de culto”, disse Raimundo.
Segundo Fernando Guerreiro, presidente da Fundação Gregório de Matos, o parque passa por definição da prefeitura e, até 2015, a pedra será tombada por meio da Lei do Tombamento sancionada em janeiro deste ano.
No início de 2015, uma nova manifestação será realizada no local. A 6ª Caminhada da Pedra de Xangô deve mobilizar mais de 100 terreiros no segundo domingo de fevereiro, conforme Mãe Iara.
Matéria de Priscila Machado, publicada no jornal A Tarde desta segunda-feira (15).
