Bembé do Mercado celebra 128 anos de afirmação da religiosidade e da cultura negra

11/05/2017
Começou nesta quarta-feira (10) e segue até o próximo sábado (14), na cidade de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, a 128ª edição da tradicional festa do Bembé do Mercado, o maior candomblé de rua do mundo. O evento traz como tema, neste ano, “Juntos Somos Mais Fortes”. Durante a festa, babalorixás e ialorixás de mais de 45 terreiros de candomblé vão as ruas. Para Pai Poti, que está à frente da organização, o momento é de comemoração, mas principalmente de reflexão. “É a afirmação do povo negro, da luta, da resistência das casas de matriz africana”, disse, em meio à Roda de Conversa “Mestres e Maestros”, conduzida pelo Núcleo Egbé Oniré sobre a importância e comportamento dos Ogans dentro dos terreiros candomblé, que abriu a programação.

Registrado como Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2012 pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), entidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), o Bembé do Mercado também apresenta uma programação diária recheada de manifestações culturais, no Largo do Mercado. No palco montado no barracão, shows com grupos de samba de roda locais e de outras atrações como: Ilê Aiyê, Raimundo Sodré, Cortejo Afro, Ana Mametto, entre outros, animam o público.

O ponto alto da festa acontece na madrugada de sábado (13), para domingo (14), quando uma cerimônia anuncia o presente às águas. Às 14h, o povo de axé sai do Largo do Mercado em direção à praia de Itapema, também em Santo Amaro, para fazer a entrega da oferenda à Iemanjá (balaio com flores, perfumes e outros artigos).

São parceiros da festa a Associação Beneficente Ilé Axé Oju Oniré; a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Santo Amaro; secretarias estaduais de Turismo (Setur); de Cultura (Secult), através do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC); e de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi); além da Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura.

A história - O Bembé está relacionado ao Treze de Maio, data emblemática, que marca a extinção legal da escravidão, no ano de 1888, momento em que o povo liberto da escravidão se organizou para celebrar suas lutas. Entretanto, desde 1808, festejos públicos que envolviam africanos eram comuns nas ruas de Santo Amaro da Purificação. Como bem analisa João José Reis (1991), Bembé é uma festa realizada pelas comunidades de terreiro.

Segundo a tradição oral, a festa começou em 1889, quando João de Obá – “pai de terreiro”– reuniu filhos e filhas de santo e armou um barracão de pindoba, enfeitando-o com bandeirolas, para comemorar o aniversário da abolição. A atitude de João de Obá relacionava-se também ao costume dos pescadores em ofertarem flores e perfumes para a Mãe D’água. Eles iam, de canoas e saveiros enfeitados, até São Bento das Lajes, levar presentes para as “águas”. Esse ritual era acompanhado por toques de atabaques. Chegando ao encontro entre o rio e o mar, um pescador experiente mergulhava, para entregar as oferendas.

Preservação - O IPAC foi o responsável pelas pesquisas que transformaram a manifestação em "Patrimônio da Bahia", produzindo livro e videodocumentário sobre o tema. A coleção Cadernos do IPAC está no sétimo volume. São 160 páginas, mais de 170 imagens entre fotografias, mapas e infográficos, além do videodocumentário de 52 minutos.


*Com informações da Ascom Secult