Julho das Pretas destaca necessidade de mulheres negras no poder e na execução das políticas públicas

01/09/2015

julhoEmpoderadas, com seus turbantes, as servidoras públicas negras do Estado subiram a rampa oficial da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) na tarde desta quinta-feira (23), ao som da banda Didá, num ato simbólico de ocupação dos espaços de poder pelo segmento. O rito antecedeu o seminário ‘Promoção da Equidade de Gênero e Raça na Bahia’, promovido pelo governo estadual, como parte das mobilizações do ‘Julho das Pretas.

“As organizações da sociedade civil têm realizado muitas atividades para dar visibilidade ao 25 de julho [Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha]. Os espaços institucionais é que precisam absorver essa riqueza construída pelos movimentos negro e de mulheres, o que fazemos aqui hoje”, afirmou a titular da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Vera Lúcia Barbosa.

A gestora destacou, ainda, a união das diversas instâncias governamentais para efetivação do Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa do Estado, que completou um ano no mês de junho. “O nosso desafio, agora, é regulamentar o capítulo VII, que trata dos direitos das mulheres negras. Este importante documento resulta de uma construção coletiva da comunidade negra e governo”, concluiu.

Para a secretária estadual de Políticas para as Mulheres (SPM), Olivia Santana, que participou, em 1996, de encontro na Costa Rica, onde foram discutidas estratégias para que a proposta do 25 de Julho se espalhasse pela América Latina, a militância é insubstituível. “O que acontece aqui é a vitória dessas mulheres, que acreditaram, apostaram, na defesa dos seus direitos”.

Depoimentos

“Quando entrei na Polícia Militar, usava tranças. A primeira coisa que ouvi foi que eram incompatíveis com a corporação. E passei anos servindo, usando aquelas tranças, e não me acho incompatível a ela”, desabafou a capitã Denice Santiago, ressaltando, ainda, que “essa é a mesma casa que me deu a oportunidade de criar, em 2006, o Centro Maria Felipa, único núcleo de gênero do órgão no estado e, hoje, estabelecer uma parceria com a Sepromi na área do enfrentamento ao racismo institucional”.

Trazendo o Quilombo dos Palmares como modelo para construção de uma sociedade mais justa, a partir dos princípios da colaboração e fraternidade, a procuradora do Estado da Bahia, Cléia Santos, disse que “democracia é respeitar a opinião do outro, aprender a falar e a escutar as diferenças, assim como ter um conselho deliberativo que seja capaz de conduzir a vida de todos”.

Ela explicou que o local recebia índios e segmentos excluídos da sociedade. “Era uma comunidade que conseguia ouvir a diversidade e reconhecer em todos uma base importante no desenvolvimento de uma grande história que foi o quilombo e que, com certeza, podemos encontrar modelos para refazer esse Estado brasileiro que se diz inclusivo, mais ainda não é”.

A procuradora disse que não é fácil quando coloca o trançado, pois as pessoas têm dificuldade de aceitação. Também mencionou que esse encontro só foi possível porque as secretarias estão tendo a mesma linguagem. “O cumprimento das políticas públicas só será possível a partir da transversalidade”, finalizou.

Parcerias

Para a representante da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), Anhamona Brito, a unidade das mulheres negras é fundamental para conquista de novos espaços. “Entre nós não pode ter inveja, mas parcerias, cumplicidade, para que todas possam ocupar postos significativos, como prefeitas, vereadoras, cargos de destaque. É uma trama do bem que dará certo se estivermos juntas e nos compreendermos enquanto mulheres negras”.

Participaram, ainda, do seminário a deputada Fabíola Mansur, as representantes das Secretarias da Educação (SEC), Deyse Santos, e da Saúde (Sesab), Ubiraci Matilde, e a vereadora Marta Rodrigues, bem como ativistas do movimento negro e outras servidoras estaduais. A organização foi da Sepromi em parceria com a SJDHDS, SPM, Comissão dos Direitos da Mulher da Alba e Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI), vinculado à Secretaria da Cultura (Secult).

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