Debate sobre a Irmandade da Boa Morte abre atividades do ‘Julho das Pretas’

03/09/2015

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Conhecida mundialmente, a Irmandade da Boa Morte, uma das confrarias mais antigas do país, foi tema de debate nesta quarta-feira (15), no Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, em Salvador. A atividade dá início a uma extensa programação do governo baiano, por meio da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), em busca da visibilidade às lutas e avanços das mulheres negras, como parte do projeto ‘Julho das Pretas’. Entidades da sociedade civil e outros órgãos estaduais também estão mobilizados, unindo esforços para garantia de direitos e construção de estratégias na área.

E nada mais justo que começar as atividades com a irmandade secular, que é prova da resistência da mulher negra, desde o período escravagista, quando levantaram um movimento abolicionista, até a atualidade, na luta contra a discriminação racial e à intolerância religiosa. O objetivo inicial da confraria foi “dar liberdade aos seus”, conforme explica a pesquisadora e técnica da Sepromi, Rosy Mary Santos, e dignificar o momento de sua morte. “Tem aquela expressão ‘viver, nascer e morrer’, mas os negros não tinham dignidade assegurada em nenhum momento. Daí a intenção das irmãs em dar, pelo menos, um bom sepultamento, uma boa morte”.

Representando a confraria, a irmã Edite Marques deixou claro o perfil daquelas que integram o grupo. “São mulheres negras, de preferência a partir dos 45 anos, que estejam bem com a sociedade, família e religião, ou seja, já sabem o que querem da vida”. Ao saber do encontro, a conselheira municipal de Desenvolvimento da Comunidade Negra, Nilsa Bonfim, não perdeu a oportunidade de participar e multiplicar o conhecimento. “Essas informações precisam ser compartilhadas com as novas gerações. Vou levar o que aprendi aqui para o meu pessoal”.

História

O curta-metragem Viver (Boa) Morte (2010), dirigido por Eduardo Gomes, foi exibido na ocasião. Segundo um dos administradores da confraria, Valmir Pereira, a irmandade surgiu a partir de um “movimento abolicionista por parte das chamadas mucambas, que, com acesso livre à casa grande e à senzala, levavam agasalhos, remédios, comidas e até organizavam fugas”. Quando alcançaram a liberdade, elaboraram o movimento das ganhadeiras ou mulheres de ganho, revertendo os recursos das vendas de produtos para comprar cartas de alforria.

Pereira ressaltou, ainda, que o “processo na busca da liberdade de expressão religiosa foi iniciado na Barroquinha, na capital baiana, quando edificaram uma igreja, seguindo depois para várias partes do Brasil e dando, finalmente, continuidade no município de Cachoeira”. De acordo com Rosy Mary, essa mudança deve-se às perseguições religiosas e à situação econômica da época, com melhores possibilidades no Recôncavo, o que inclui a “cana de açúcar, o fumo e o porto, facilitando a ida e vinda de mercadorias e informações”.

Festa da Boa Morte

Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2010, a Festa da Boa Morte acontece todos os anos, no mês de agosto, na cidade de Cachoeira. A programação oficial vai do dia 13 a 17, com missas, ceia, apresentação de grupos culturais, cozido, feijoada, caruru, alvorada de fogos, procissão, entre outras atividades. Segundo Mary, o sincretismo religioso foi a estratégia utilizada, na época, para cultuar os orixás por meio das imagens, sendo as irmãs ao mesmo tempo da igreja católica e do candomblé. Clique aqui para saber mais.

Julho das Pretas

O encontro contou, ainda, com a participação dos coordenadores da Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, Nairobi Aguiar, e do Centro de Referência Nelson Mandela, Walmir França, que apresentaram a proposta e o calendário do ‘Julho das Pretas’, em alusão ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha (25/07).

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