Festa da Boa Morte é sinônimo de resistência negra e diversidade religiosa

15/08/2019
O município de Cachoeira, no Recôncavo baiano, sedia mais uma edição da Festa da Boa Morte, manifestação cultural e religiosa que acumula cerca de dois séculos de tradição. As atividades desta quinta-feira (15), ponto alto da festa, contaram com a presença da titular da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Fabya Reis, juntamente com lideranças e autoridades da região.

As festividades começaram já nas primeiras horas do dia, às 5h, com alvorada de fogos. Às 10h, reunindo um grande e diversificado público, foi celebrada uma missa solene na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário.

"A Irmandade da Boa Morte é, sem dúvidas, um exemplo de fé e resistência negra. Na Década Internacional Afrodescendente, fazemos este reconhecimento público, trabalhamos para a visibilidade destas mulheres negras e suas inegáveis contribuições históricas. Um grande exemplo de luta pela libertação da população negra escravizada, ainda atuando pela liberdade plena, o respeito às questões religiosas e étnico-raciais", disse a secretária da Sepromi, Fabya Reis.

Ela destacou, ainda, que as atividades acontecem em pleno período do Agosto da Igualdade, calendário que resgata outras lutas históricas como a Revolta dos Búzios, ocorrida na Bahia, a partir de 1798.A gestora participou, ainda, da procissão que percorreu as ruas da cidade de Cachoeira.

A programação do evento segue com diversas movimentações, a exemplo da posse da comissão organizadora, almoço comemorativo, além de manifestações culturais. O ciclo festivo será encerrado neste sábado (17) com a distribuição de mungunzá e caruru ao público, ao som de samba de roda do Recôncavo.

Tradição secular e luta pela liberdade


A festividade é realizada pela Irmandade da Boa Morte, uma das maiores organizações religiosas da Bahia. A devoção foi iniciada na Igreja da Barroquinha, em Salvador, sendo transferida para a cidade de Cachoeira por volta de 1820, defendendo, justamente, o fim da escravidão. De acordo com a tradição a missão é passada para várias gerações. Os rituais da festa contam com ampla participação, principalmente das integrantes da irmandade, que é formada por mulheres negras descendentes de pessoas que foram escravizadas.

A celebração reúne atos litúrgicos da fé católica e ensinamentos ancestrais das religiões de matriz africana. O evento atrai turistas de diversos estados e de países estrangeiros. A Festa da Boa Morte é registrada como Patrimônio Imaterial da Bahia, desde 2010, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac), órgão vinculado à Secretaria de Cultura (Secult).