Bracelete, coroa, espada, capacete e argolas foram alguns dos adereços de orixás produzidos durante curso apoiado pelo edital Novembro Negro, da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). A capacitação resultou na exposição Arte de Santo, realizada na noite desta quarta-feira (24), no Ilê Axé Yá Onira, no bairro de Brotas, em Salvador.
O projeto elaborado pela Associação Civil Filhos de Bárbara contou com a participação de 30 pessoas, de diferentes religiões, como a evangélica Zenaide Silva, que se interessou pela pintura em cerâmica. “A união com as colegas foi maravilhosa, nos respeitamos muito, sem agressão alguma”, disse, demonstrando a possibilidade da convivência pacífica independente de crença ou falta dela.
Para Marina Trindade, adepta do candomblé, o aprendizado servirá para produção de uso pessoal e venda. “É uma maneira de ter uma renda extra. Se aparece gente para comprar, ganho com isso”, afirmou. Segundo Pai Roberto de Iansã, líder religioso do terreiro e responsável pela iniciativa, as peças serão divididas entre as participantes para “que comercializem, comprem novos materiais e atuem na área”.
“Cada pessoa pode seguir uma técnica, a que mais achar interessante, e vender os adereços para as suas irmãs de santo (no caso das que são de religião de matriz africana), abrindo futuramente o seu ateliê”, disse o babalorixá, lembrando que o curso é uma antiga demanda das mulheres que participaram do projeto ‘'Richelieu e Bordados Ancestrais', apoiado pela Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre).
“Não é possível vestir o Richelieu sem os adereços, que completam as roupas de santo, por isso esperei um edital para essa capacitação específica. O apoio da Sepromi foi fundamental nesse processo porque a matéria prima, em sua maioria, é cara”, explicou Pai Roberto. Entre os materiais utilizados na produção estão pedraria, cerâmica, cordões, plumas, papelão e lata.
Empoderamento
Na atividade, Ana Placidino, da Coordenação de Políticas para Comunidades Tradicionais da Sepromi, lembrou que o edital teve como categorias Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento, que são eixos da Década Internacional Afrodescendente (2015-2024). A medida foi proclamada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e aderida pelo Governo da Bahia para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas às comunidades negras.
“Recebemos muitas propostas boas, em formatos de caminhada, marcha, seminário, capacitação, encontro e ação de empreendedorismo, o que demonstra a força das entidades que representam o povo negro, e a Associação Civil Filhos de Bárbara não pode parar a serviço do etnodesenvolvimento, traduzindo o nosso patrimônio em arte e autonomia financeira para o nosso povo”, disse Ana.
Ela também destacou que parte do recurso adquirido com os adereços pode ser aproveitada pelos terreiros para pagamento das despesas, como água e luz, e que a ação fortalece o empoderamento das mulheres negras e do candomblé, o diálogo entre as religiões, a cultura de matriz africana e o conceito de rede.