Artigo: Desafios Pós-Abolição e o Racismo

13/05/2016
A Lei Áurea de 13 de maio de 1888, que teve como objetivo a abolição da escravatura, não foi acompanhada da tarefa histórica de produzir um novo pacto social que reduzisse as desigualdades e equilibrasse racialmente a sociedade brasileira, com a divisão equitativa de bens e serviços.

Uma herança estruturante dessas relações, após a convivência por mais de três séculos com o trabalho escravo enquanto modo de produção, é o racismo institucional. Ele reduz a capacidade das instituições em atender às demandas da diversidade racial da sociedade. Essa incapacidade torna-se mais grave quando é verificada nas instituições públicas, que precarizam a prestação dos serviços básicos à população negra.

Refiro-me ao racismo enquanto sistema desenvolvido numa lógica sofisticada em que aparecem os seus efeitos sobre a vida das pessoas, mas nunca seus agentes, camuflados por décadas sob o mito da democracia racial. Esse sistema orientou e ainda orienta padrões estéticos com base eurocêntrica. Determina papéis e lugares a serem ocupados, deixando nas entrelinhas o tipo de tratamento a ser dispensado a determinados grupos étnicos.

Se aprendemos a ser racistas também podemos desaprender, como ensina Nelson Mandela. Desta forma, é certo que o aparelho estatal tem uma nobre missão a cumprir: ampliar a democracia nas suas estruturas, adequando-as para a tarefa da reparação. Essa pauta, oferecida pelo movimento negro, deixou de ser exclusiva das suas lideranças para se constituir e somar numa agenda política e pública, uma agenda de Estado.

Em 2010, o governo brasileiro deu importante passo ao sancionar o Estatuto da Igualdade Racial. Antes, em 2003, criou a primeira secretaria para tratar de políticas de igualdade racial. Também foram sancionadas leis para inclusão de estudos afro-brasileiros e indígenas nas escolas. Além disso, tivemos a instituição de políticas para comunidades e povos tradicionais, a exemplo de quilombolas, indígenas, fundos e fechos de pasto, geraizeiros, marisqueiras e povos de terreiro.

Na Bahia, a criação da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), em 2007, marca um novo paradigma nas políticas públicas. Em 2014 foi sancionado o Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa, fruto do diálogo entre movimento negro, parlamentares e governos. À luz deste instrumento temos feito articulações em rede, com organizações diversas, inclusive o Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra.

Nosso Estatuto orienta que o Estado “promoverá a adequação dos serviços públicos ao princípio do reconhecimento e valorização da diversidade e da diferença racial, religiosa e cultural", recomendando, ainda, "articulações com gestores públicos para definir estratégias e implementar planos para enfrentamento ao racismo institucional”. Este é, portanto, um documento balizador no combate à discriminação racial, uma conquista histórica, além de um passo significativo na luta.

Se o 13 de maio de 1888 não resolveu a questão racial, restou ao povo negro enfrentar as lutas do dia seguinte: sem cidadania, sem terra, sem moradia digna, sem documentação, muitos sem nome próprio, sem qualquer amparo para tocar a vida. Pois bem, a luta dos dias seguintes continua em pauta. E para registrar a data, estamos organizando o seminário “O Governo da Bahia combatendo o Racismo Institucional: Uma Agenda Pós-Abolição”. Trata-se de um esforço para fortalecer estratégias que garantam respeito e atendimento equitativo ao povo negro. O evento é uma ação do grupo de trabalho intersecretarias, disposto no decreto 16.320/2015, que instituiu a Década Estadual Afrodescendente, compreendendo um conjunto de políticas públicas voltadas às comunidades negras até 31 de dezembro de 2024.


Vera Lúcia Barbosa
Titular da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia (Sepromi)
E-mail: vera.barbosa@sepromi.ba.gov.br

Artigo publicado no jornal A Tarde desta sexta-feira (13)