Cine-debate sobre tradições do povo cigano contribui para quebrar estereótipos

03/09/2015

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Para desmistificar estereótipos em relação ao povo cigano e divulgar as tradições culturais do segmento, o Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, órgão vinculado à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado (Sepromi), promoveu, nesta sexta-feira (22), um cine-debate.

A apresentação do documentário “Olho A’dentro – Povo Cigano”, coordenado por Rosângela Mercês, contou com a participação da titular da Sepromi, Vera Lúcia Barbosa, e do coordenador da unidade, Walmir França, seguida de um bate-papo com a produtora Ohana Souza e o doutor em Ciências Biológicas, Jucelho Dantas, que é cigano da etnia calon.

_DSC0019“Momentos como este, que mostram o outro lado, são louváveis. O preconceito com os ciganos já foi muito mais forte, porque até pouco tempo eram nômades, em sua grande maioria. Eu só fui tirar a minha certidão de nascimento com 15 anos, quando também comecei a estudar. O estereótipo era tanto que os próprios ciganos internalizavam”, disse o professor Jucelho.

A proposta inicial da obra, segundo Ohana, foi trabalhar a desconstrução do preconceito com o povo cigano, principalmente em relação à mulher, “visto que os homens geralmente não carregam as características no cotidiano, a exemplo das roupas”. Quem compareceu à atividade teve a oportunidade de aprender sobre a origem desse povo, assim como suas tradições culturais, economia, religião e relações sociais.

Aprendizado

_DSC0034Segundo Jucelho, os ciganos migraram da Índia para Europa, de onde se espalharam pelo mundo. No Brasil, chegaram em 1574. Sua principal atividade econômica era a compra e venda de animais, o que mudou ao longo do tempo, como eletrodomésticos e carros. “São muito versáteis. Se adaptam às condições que são oferecidas”, explicou. Ele informou ainda que muitas vezes os ciganos mudavam de cidade por conta própria, mas também eram expulsos.

Para o professor de História, Leandro Assis, que participou pela segunda vez de um encontro no Centro de Referência, o cine-debate ofereceu um embasamento para ajudar na luta contra a intolerância. “Por não conhecerem a cultura cigana, as pessoas reproduzem o preconceito. O que me trouxe aqui foi saber um pouco mais para quebrar esse estereótipo”.

A estudante de Psicologia, Edla Gama, que está fazendo seu trabalho de conclusão de curso na área, também aprovou a iniciativa. “Fiquei feliz de saber que teria esse evento, pois não vejo o povo cigano nas pautas das universidades e políticas. Agora que tá emergindo. E o segmento foi principal ponto de discussão aqui”.

De acordo com a secretária Vera Lúcia Barbosa, a atividade marca o Dia Nacional do Cigano, a ser comemorado neste domingo (24), e contribui para “conscientizar as pessoas no processo de combate ao racismo e à intolerância na Bahia, para que todos possam conviver em harmonia independente das diferenças culturais”.

Além do atendimento a vítimas de casos relacionados, o Centro de Referência promove uma série de encontros neste sentido, geralmente às sextas-feiras. A produção de “Olho A’dentro”, de 2013, com 75 minutos de duração, contou com apoio do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI), órgão vinculado à Secretaria de Cultura (Secult), e incentivo cultural do Fundo de Cultura da Bahia.

Dia do Cigano

O Dia Nacional do Cigano foi instituído em 25 de maio de 2006 por meio de decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em reconhecimento à contribuição da etnia cigana na formação da história e da identidade cultural brasileira. No calendário cigano, o dia 24 de maio é dedicado a Santa Sara Kali, padroeira dos povos ciganos.

A data também é um momento de reflexão acerca da sua histórica dificuldade de acesso a políticas públicas, reconhecimento e incentivo à integração deste segmento tradicional da população. “O reconhecimento dos ciganos no então governo Lula melhorou a autoestima do segmento. E, a partir disso, começamos a participar de vários encontros na Bahia e no Brasil”, concluiu o professor Jucelho.