Um novo capítulo está sendo (re)escrito na história do campus dos Malês da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e também na vida de 30 estudantes quilombolas, com o início do curso de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola, cuja aula inaugural para a primeira turma aconteceu no dia 05 de fevereiro. Os discentes pertencem a três comunidades quilombolas certificadas de São Francisco do Conde: Monte Recôncavo, Ilha do Paty e Dom João. O curso integra o Programa da Capes/Ministério da Educação (MEC) Parfor Equidade.
“Esse curso é muito importante, inclusive para levar os temas da nossa história, da nossa vivência, da importância de ser quilombola. E para aprimorar cada dia mais com as crianças, trazendo essa experiência que a gente teve com nossos antepassados. É uma oportunidade que eu abracei”, conta a estudante Edna Lopes, que integra a primeira turma do curso de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola.
A importância de valorizar a história, além cultura, saberes e fazeres quilombolas, também foi destacada pelas discentes do quilombo Monte Recôncavo. “Vi esse curso como uma porta que está se abrindo para eu ter conhecimento e poder mostrar a importância de ser quilombola. Sonho em trabalhar na área de Educação. Quero que a cultura do meu quilombo permaneça e continue, que não fique esquecida. Temos lá muitas culturas, temos capoeira, a charanga e samba de roda”, aponta a estudante Regina Jorge do Carmo.
A professora e coordenadora do curso na Unilab, Zelinda Barros, contextualiza que esse curso é fruto de uma luta de muitas décadas e de uma demanda histórica dos movimentos e comunidades quilombolas, por uma educação específica.
“A educação é fundamental nesse sentido de fazer com que a gente se perceba a partir de um outro lugar e valorizando nossas existências como quilombolas, trazendo à tona todo esse conhecimento que é produzido por nós, nas nossas comunidades. E colocar esses conhecimentos com o que vem sendo produzido nas universidades é muito importante, porque a partir desse diálogo a gente tem condições de construir novas possibilidades epistêmicas”, explica Zelinda Barros.
Ela aponta ainda que o curso foi pensado no contexto de uma educação em que a própria comunidade já ministra os seus processos formativos informais, a exemplo da oralidade. “A gente muda a educação realmente a partir da estrutura, do modo como ela é pensada e ofertada, não simplesmente reproduzindo modelo com outros conteúdos, porque não se trata de abordagem de conteúdos diferentes, é mudar a forma como a educação é pensada e a forma como a educação é ministrada”, afirma a docente.
Além da professora Zelinda Barros, o curso de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola, no campus dos Malês, também será ministrado por outras professoras oriundas de comunidades quilombolas e também egressas da Unilab. Entre elas, Naiane Jesus Pinto, graduada em Ciências Sociais, quilombola da comunidade Dom João e uma das primeiras estudantes de São Francisco do Conde a ingressar na Unilab. “Hoje pra gente é um dia histórico de muita felicidade, de poder estar ao lado dos professores que me formaram e agora ser colega dos professores. E também contribuir com a formação de outros professores vai ser de uma grandiosidade que não cabe no peito. Costumo dizer que as comunidades sempre foram minha sala de aula”, aponta Naiane, que irá ministrar a disciplina “Educação Quilombola”, juntamente com outra egressa dona Joca.
Na mesa de abertura da aula inaugural, a diretora do campus dos Malês Mírian Reis lembrou que o novo curso – que, segundo aponta, traz “espírito de confluência de saberes” – converge com os princípios que regem a Unilab. “É uma universidade que se baseia nos princípios da solidariedade entre os povos e que tem como sua premissa combater toda forma de desigualdade social, racial e de injustiças para construir uma sociedade cada vez melhor”, afirmou. Ela também agradeceu aos novos estudantes pela oportunidade de partilharem o sonho de uma universidade.
Texto: UNILAB com colaboração da OBTV/TV Malês.