“Falar ao microfone, sendo estudante negro e candomblecista, não foi fácil para mim; da mesma forma para meus colegas e professores”, disse o Táta Luangomina, representando os estudantes da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), no seminário sobre diversidade étnico-racial realizado nesta quarta-feira (25), no Campus dos Malês, em São Francisco do Conde. O bacharelando em Humanidades referiu-se à luta do segmento pelo acesso ao ensino superior e a ocupação dos diversos espaços na sociedade.
O encontro foi construído pelo grupo de trabalho da Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa da Bahia que é composto por representantes de universidades federais e estaduais (Unilab, UFBA, Uneb, Uefs, Uesc e Uesb), em parceria com as Secretarias de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) e da Educação (SEC). Teve como objetivo envolver a comunidade acadêmica, estudantes da rede pública e moradores locais para o enfrentamento ao racismo, à intolerância religiosa e demais formas de discriminação nos ambientes de formação.
No momento da plenária, a estudante Carline Lima, 19 anos, que cursa o terceiro ano do ensino médio, disse que atividades como essa precisam acontecer durante todo o ano nas escolas, não somente no mês da consciência negra, destacando ainda a falta de conteúdos referentes à história do povo negro na grade curricular. “Me considero uma pessoa pobre de conhecimento porque não sei a história da minha cidade, da minha comunidade, dos meus antecedentes”. Ela se preocupa em passar informações para o seu filho e as próximas gerações.
Racismo institucional
Ao apresentar o conceito de racismo institucional, tema de um dos paineis, o professor da Unilab, Carlindo Fausto, falou das estruturas de poder, como entidades governamentais, sistema de justiça e instituições de ensino, que, segundo ele, priveligiam determinados grupos em determinado de outros. “Há poucos docentes negros. Além disso, os currículos não estão afinados com a composição étnico-racial das salas”.
Segundo Antônio Cosme, da Coordenação de Promoção da Igualdade Racial da Sepromi, o modelo de ensino reproduz o racismo, enraizado historicamente na sociedade, mostrando os negros apenas enquanto escravos e não como protagonistas, líderes de tantos movimentos que culminaram na independência e no fim da escravatura, contribuindo para o desenvolvimento do país.
Ele também falou sobre a Década Internacional Afrodescendente, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e aderida, de forma pioneira, pelo governo estadual, vigorando até dezembro de 2024. Uma série de compromissos foram assumidos, inclusive na área da educação, em especial a busca pela efetivação da lei 10.639/2003, que trata do ensino da história e cultura africana nas unidades de ensino.
O painel foi encerrado com a participação da professora da Universidade da Carolina do Norte (EUA), Courtney Woods, que falou do racismo ambiental, pontuando desastres que afetam diretamente a população negra e os povos e comunidades tradicionais, mas que muitas vezes são tratados como acidentes.
Carana da Igualdade
Uma dinâmica conduzida pelos representantes da Sepromi e SEC, respectivamente, professor Basilon Carvalho e Érica Capinam, abordou a diversidade de religião, orientação sexual, cabelo e cor de pele, na busca pela conscientização sobre o respeito às identidades de cada sujeito. Também foram explicados os direitos dos estudantes candomblecistas, garantidos no Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa, como a ausência e compensação de aulas em caso de atividade religiosa.
Essas e outras temáticas estão sendo tratadas nas Caravanas da Igualdade/Diálogos Formativos, resultado de parceria das duas pastas, para minimizar as práticas discriminatórias e racistas no âmbito da estrutura educacional, assim como trabalhar o enfrentamento ao sexismo e à homofobia do cotidiano nas unidades escolares. As atividades são direcionadas a gestores escolares, professores, técnicos da SEC e dirigentes dos 27 Núcleos Regionais de Educação, dentre outros públicos.
O seminário, inclusive, foi proposto à Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa pelo grupo de trabalho “Educação”, composto por técnicos da Sepromi e SEC, através das Coordenações de Educação para a Diversidade (CED) e de Desenvolvimento de Educação Superior (Codes).
Proposta diferenciada
Na abertura do evento, a diretora do Campus, Matilde Ribeiro, lembrou do esforço da ex-prefeita de São Francisco do Conde, Rilza Valentim, em trazer a Unilab para a cidade, que tem em sua maioria população negra, “com a missão de garantir um ensino de qualidade, mas ao mesmo tempo trabalhar pelo reconhecimento da existência do racismo, valorização da cultura negra e relação com o continente africano”. O seminário, segundo ela, é uma ação importante nesta direção já que a universidade é um “espaço de movimentação de ideias”.
O estudante de Guiné Bissau, Hipólito Mendes, 30 anos, reforçou que é preciso se aproximar, pensar estratégias conjuntas, para a contrução do respeito e da paz. “Desde que cheguei no Brasil me confronto com situações de racismo. A luta vale a pena, mas só se for planejada e com o envolvimento de todos”. Participaram ainda do encontro outra representante da SEC, Patrícia D´Ávila, e das universidades que compõem a Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa.
A Unilab visa contribuir com a integração entre o Brasil e os demais países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP, especialmente os africanos, bem como promover o desenvolvimento regional e o intercâmbio cultural, científico e educacional. O seminário terminou com compartilhamento de experiências dos estudantes da universidade, principalmente em como é ser negro no país, diante das dificuldades impostas pelas situações de racismo.