Artigo: A vergonha nacional, por Fabya Reis

15/02/2019

*Fabya Reis

Após 131 anos da abolição formal da escravidão no Brasil nos percebemos confrontados com um tabu: a vergonha nacional de sermos uma sociedade racista. Mesmo com a luta do movimento antirracista em desmontar o mito da democracia racial. Uma mobilização que empurra o Estado na quadra de democratização do país, fazendo esta pauta figurar nas políticas públicas. 

Constatamos, diante de manifestações de racismo, um ar de surpresa da pessoa que o pratica, ao dizer “eu não tive a intenção” e “não achei que isso fosse racismo”. É a naturalização do racismo estrutural internalizado, gerando dor para as vítimas e impactos na sua vida político-social, econômica, cultural, com baixa responsabilização de agressores. Devemos nos perguntar onde reside o racismo em nós. Na minha instituição, escola, em mim ou nas minhas relações? Um exercício para sairmos da opacidade e promovermos deslocamentos, mudanças de posturas, escolhas e consciências.  Imagino que seja a tarefa urgente de todos, não só de ativistas.

O racismo nos alcança na construção da imagem do jovem negro como “potencial suspeito”; nas taxas de desemprego, sendo 2 pessoas negras a cada 3 desempregadas; nas mortes de jovens negros na “guerra” contra drogas. No feminicídio, que cresceu 54% entre mulheres negras; quando as mãos do racismo apertam o pescoço do povo negro nas universidades, tornando-os alvo de soslaios e desprezo. Afeta quando seus pés esmagam territórios tradicionais.

O racismo está em shoppings, bares, restaurantes. É manifestado quando seguranças perseguem pessoas negras. Quando jogadores negros têm bananas jogadas em sua direção. É um sistema de estratificação social, metanarrativa permeando subjetividades. Amplifica-se em sistemas de controle, sofistica-se como sistemas de dominação e poder. Ganha potência como ideia, por isso é possível perceber o racismo, mas difícil identificar o racista.

Num misto de conquista e vergonha, somos a única secretaria no Brasil com a pauta específica da igualdade racial. Somente a Bahia aderiu ao pacto da Década Afrodescendente. Já acompanhamos 500 casos de racismo e intolerância religiosa, ainda com subnotificação. A tarefa do combate ao racismo não é apenas do povo negro, mas da sociedade. Alguns caminhos são possíveis: campanhas, aprimoramento do Sistema de Justiça, produção de conhecimento sobre nossa história, valorização de saberes, da intelectualidade e das mulheres negras, aplicação das leis 10.639 e 11.645. Bússolas para orientar a travessia, admitindo que fracassamos no processo civilizatório, que é preciso ter coragem. Não ter medo de dizer: estamos presos em velhas correntes e é necessário rompê-las, alçando voos de dignidade e justiça racial.

*Fabya Reis é titular da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi).

Publicado originalmente no Jornal A Tarde de 15/02/19.