Estudantes, ativistas do movimento negro, educadores, acadêmicos e profissionais de diversas áreas prestigiaram o painel “Literatura Negra Comentada”, realizado nesta sexta (8), em Salvador. A atividade foi organizada pelo Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, vinculado à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) e à Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa. Nesta edição o destaque foi para a obra “Alternativas para combater o racismo”, livro do sociólogo Manoel de Almeida Cruz, publicado em 1989. Depoimentos emocionados de pessoas que conviveram com o autor marcaram o evento, divulgando o seu trabalho junto ao público presente. Dentre os participantes estava a chefe de Gabinete da Sepromi, Maiara Oliveira.
Ailton Ferreira, assessor especial da Sepromi, também ativista do movimento negro de Salvador, lembrou que além da atuação como educador, Manoel de Almeida deixou um legado de incentivo ao protagonismo e à liderança do povo negro, com “muita polidez e um jeito paternal nas palavras dirigidas a quem convivia com ele”. Segundo Ferreira, uma das maiores marcas de Manoel foi a sapiência e a simplicidade até nos pequenos diálogos que mantinha com moradores das ruas e becos do bairro Fazenda Grande do Retiro, na capital, onde viveu por um bom período. “Mesmo nas conversas informais, socializada exemplares de livros e textos acadêmicos”, contou Ailton, que foi seu aluno na Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A pedagoga Gerusa Bispo também relatou as experiências que teve com “professor Manoel”, como era chamado pela maioria. “Na Fazenda Grande o conheci, vestido com sua bata e usando um chapéu panamá, quando o mesmo me convidou para uma palestra sobre pedagogia interétnica. Nessa época já se pensava em trabalhar as questões étnico-raciais no currículo escolar de Salvador”, explicou. “O tempo todo ele [Manoel] falava que nós, professores, deveríamos atuar trabalhando o combate ao racismo na sala de aula. Foi uma contribuição metodológica para o nosso trabalho”, afirmou Gerusa, também militante, ressaltando que o autor foi grande defensor da estratégia da interdisciplinaridade para tratar de temas desta natureza, inclusive se antecipando à criação da Lei 10.639/2003, que determina a introdução da história e cultura afro-brasileiras nas práticas educacionais.
Já o produtor cultural Nelson Mendes pontuou que Manoel de Almeida colaborou expressivamente para a compreensão acerca da forma como o racismo é estruturando no Brasil. “Do ponto de vista pessoal, inclusive, contribuiu para minha compreensão sobre a política brasileira e, profissionalmente, trazendo o entendimento de como combater o racismo no mundo do trabalho”, testemunhou. Nelson, também educador, defendeu a criação de um memorial para preservação das obras e pertences do sociólogo, falecido em 2004 e, segundo ele, formador de muitos militantes e profissionais baianos de variados segmentos.
Reforço às práticas educacionais – Professor de História em Salvador, Leandro Assis foi um dos participantes do painel, acumulando conhecimento sobre a trajetória do movimento negro baiano e as influências de Manoel de Almeida. “Atividades como estas devem ser realizadas sempre, para discutirmos questões relacionadas ao racismo e levar, realmente, os conteúdos para os espaços educacionais em que atuamos”, considerou.
O coordenador do Centro de Referência Nelson Mandela disse a discussão foi uma forma de “manter viva a obra do professor Manoel”, informando que outra estratégia para este resgate será a publicação de uma nova edição do livro “Alternativas para combater o racismo”, medida acordada junto à Sepromi. Segundo França, trata-se de reconhecer o esforço e contribuição de Manoel para a Bahia, destacando-o como “exponencial” no debate da pedagogia interétnica e fonte de conhecimento para as novas gerações.
