Serviço de enfrentamento ao racismo no Carnaval tem apoio da população

25/02/2017
Apesar de identificar o racismo no dia a dia, a ambulante Elaine Silva não sabia como proceder e onde buscar apoio. “Agora já sei e vou guardar o contato do Centro de Referência Nelson Mandela”, afirmou, após receber orientações dos técnicos da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado (Sepromi), que atuam em todos os circuitos neste Carnaval. A ação segue até terça-feira (28), incluindo, ainda, abordagem qualificada para monitoramento de casos relacionados.

“Já fui discriminada diversas vezes, principalmente como ambulante, pois muitos chegam aqui e acham que podem tudo, que temos que servir. Já recebi muita cantada e agressão verbal aqui no ponto (Pelourinho)”, contou Elaine. Sua filha também está sendo desrespeitada na escola. “Um colega a chamou de preta, foveira, de cabelo duro. Ela começou a chorar, precisou de uma pessoa para levar em casa e está com receio de voltar”, compartilhou outro caso.

Diferente da ambulante, o jovem Wilian Santos, dançarino do Bankoma, já conhecia o Centro de Referência Nelson Mandela, mas destacou a importância da campanha para que outras pessoas fiquem por dentro dos serviços. “Eu já sofri intolerância religiosa e entendo a importância de lutar por nossos direitos com a cabeça erguida. Estava com minha roupa de ração, contas, quando evangélicos me repreenderam. Só pedi respeito, sem agressão, com o sorriso no rosto”.

De quinta-feira (23) a sábado (25) foram realizadas 400 entrevistas com foliões, ambulantes, cordeiros, turistas e catadores de material reciclável sobre o assunto. Deste número, 159 pessoas alegaram ter sofrido racismo em algum momento da vida, sendo a maioria dos casos em espaço privado ou repartição pública. Já 233 afirmaram ter presenciado o ato. Das pessoas abordadas, 320 se declararam negros(as) e 83 são da religião do candomblé.

Experiências

O Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela também conta com um posto fixo durante a folia, na sede do Procon (Rua Carlos Gomes), com equipes de plantão das 14h às 22h, resultado de parceria entre a Sepromi e a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS).

Segundo o coordenador dos trabalhos, Antônio Cosme Lima, as experiências da ação no Carnaval da Bahia do ano passado serviram para aprimorar a intervenção. “Otimizamos o trabalho e estamos preparados para acolher as denúncias da população, orientar e divulgar os nossos serviços”, afirmou. A abordagem nas ruas também é uma oportunidade para obter dados que subsidiem a criação e melhoria das políticas públicas direcionadas ao povo negro.

“O carnaval é uma grande festa, momento de diversão, época na qual muitas pessoas acham que tudo é permitido, inclusive uma das violações de direitos humanos mais antigas da humanidade, o racismo, oriundo do colonialismo, da escravidão e do capitalismo”, concluiu. A cordeira Edilene Santos também apoia a iniciativa. “É importante mostrar as pessoas como denunciar, o que fazer, mas também conscientizar para que haja respeito”.