Seminário reúne contribuições da sociedade civil para Década Afrodescendente

10/06/2016
O último dia do seminário "Trajetória Política da Luta contra o Racismo", nesta sexta-feira (10), foi aberto com uma palestra do professor Hélio Santos sobre a participação do povo negro nos espaços de poder, em particular no parlamento. A atividade, realizada no Grande Hotel da Barra, em Salvador, é uma agenda da Década Internacional Afrodescendente na Bahia e resulta da parceria do Governo do Estado com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir). A titular da Sepromi, Vera Lúcia Barbosa, também esteve presente no encontro.

“A população negra é majoritária no país, mas ainda há um déficit dessa representatividade no congresso, caracterizado pelo conservadorismo e agendas contrárias aos nossos interesses”, disse o professor Hélio Santos. Segundo ele, os governos e parlamentos que objetivem trabalhar pela diversidade precisam de “equipe multidisciplinar”, destacando, ainda, a necessidade de eleger mulheres e jovens negros, “para pensar uma nova forma de política”.

A educadora para as relações étnico-raciais e de gênero, Lindinalva Barbosa, falou, em seguida, do papel da mulher negra na luta contra o racismo, citando personalidades que tiveram contribuição para o desenvolvimento do país e que, muitas vezes, são invisibilizadas pela história. Entre elas, Luiza Mahin, Lélia Gonzalez, Carolina Maria de Jesus, senhoras da Irmandade da Boa Morte e ialorixás, além das ganhadeiras, “que costuraram a sua autonomia, mesmo num processo adverso como a escravidão, visando a libertação plena”.

Barbosa abordou, ainda, a importância da organização das mulheres negras, reiteirando o princípio da solidariedade. “Não podemos deixar de buscar, juntas, a liberdade religiosa e a transformação dessa sociedade racista, machista e sexista” afirmou. No debate, Gabriel Teixeira, do Coletivo de Entidades Negras (CEN), falou da necessidade da participação do povo de santo no poder legislativo, “onde os atuais representantes têm tirado os nossos direitos e buscado nos ilegitimar”.

A chefe de gabinete da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado, Fabya Reis, explicou que a agenda de debates estabelecida nestes dois dias de evento foi “um diálogo com aqueles e aquelas que já têm uma trajetória de luta contra o racismo, para pensar políticas públicas que promovam a igualdade racial na Bahia e no Brasil”. Ela mediou o diálogo com o professor Hélio Santos.

Direitos Humanos - O presidente do Instituto Pedra de Raio e militante do movimento negro, Sérgio São Bernardo, abordou a necessidade de mudanças na legislação no que se refere aos crimes de racismo e injúria racial, assim como o reforço ao protagonismo e controle social pela sociedade civil. “Falar de direitos humanos no Brasil é falar de combate ao racismo, porque, por muito tempo, a população negra foi negada de seus direitos básicos”, argumentou Sérgio. Para Cleuza Santos, do Sindicato das Empregadas Domésticas da Bahia (Sindoméstico), “o momento de formação, troca de experiências e contribuições da sociedade civil foi muito importante para a população negra, principalmente no que tange às mulheres, que tanto sofrem com o racismo e estiveram, durante as atividades, no centro dos debates”.

Rodas de diálogo – Na parte da tarde, os participantes contribuíram com sugestões para a ampliação e o aprimoramento das políticas públicas de promoção da igualdade racial e combate ao racismo e à intolerância religiosa, com base nas temáticas das palestras ministradas durante o encontro. Também foi discutido, na oportunidade, a minuta da cartilha de orientação sobre os direitos humanos, acesso ao judiciário e organizações comunitárias. O evento teve expressiva participação de estudantes, pesquisadores, ativistas do movimento negro, segmentos de mulheres e de juventude, representações sindicais, irmandades e religiosos de matriz africana.