
“Animai-vos povo baiense, que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos: o tempo em que todos seremos iguais”, dizia um dos manifestos da Revolta dos Búzios, movimento de 1798 pela abolição da escravatura, independência e república democrática. A leitura do texto abriu um debate na noite desta sexta-feira (28), na sede dos Filhos de Gandhy, no Pelourinho, como parte das atividades do ‘Agosto da Igualdade’, mês alusivo ao processo revolucionário.
Resultado de parceria entre o Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, órgão vinculado à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), e o afoxé, o encontro teve como objetivo disseminar a história de luta do povo negro, trazendo para a atualidade os ideais da conjuração libertária.
Um dos participantes do evento, José Benedito, considerou o momento oportuno para aprender mais sobre sua ancestralidade. “Estamos vivenciando nos movimentos o que não foi ensinado no colégio. Saio daqui revigorado e reafirmando que sou negro, lindo e não vou baixar minha guarda, mas ajudar meus irmãos no gueto”, afirmou.
Após a exibição do documentário “A Cor do Trabalho”, obra que trata do empreendedorismo negro na Bahia, o cineasta responsável, Antônio Olavo, relatou o contexto de Salvador no século XVIII para melhor entendimento do processo desencadeado. “A cidade tinha cerca de 12000 escravizados e profundas desigualdades sociais, assim como opressão violenta. E onde há insatisfação, há resistência”.
Assim, no dia 12 de agosto de 1798, marco da Revolta dos Búzios, surgem manuscritos em diversos pontos da capital com temas nunca antes levantados em público, incitando o fim do governo colonial e demais bandeiras de lutas apresentadas.
Sentença
Ao investigar e reconhecer os líderes do movimento, a coroa portuguesa leva quatro à forca, João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino e Luis Gonzaga, na Praça da Piedade. Eles ainda tiveram os corpos esquartejados e pendurados pela cidade. A cabeça de João de Deus, por exemplo, como conta Antônio Olavo, foi posta defronte de sua casa, onde morava com a esposa e cinco filhos.
Seus nomes foram inscritos no Livro de Aço dos Heróis Nacionais em 4 de março de 2011, mais de 200 anos após suas mortes, depois da sanção da Lei 12.391 pela presidenta Dilma Rousseff. Já Antônio José, outro mártir da Revolta, morreu por envenenamento na prisão.
A historiadora e coordenadora do Mundo Afro, Anne Rodrigues, fez um comparativo. “O quanto está distante o nível de exposição de um cadáver da Revolta dos Búzios e nos jornais populares da cidade? Os filhos e a mulher de João de Deus tiveram que conviver com aquela situação como, certamente, agora alguém deve ter morrido na periferia e sua mãe vai chorar por isso. Essa história precisa ser reafirmada porque não está distante”.
Difusão
“Essa é uma história que precisa ser difundida. A inconfidência mineira foi um movimento pela república e pela independência, mas não tocava na escravidão. Morreu um homem branco, Tiradentes, que hoje é considerado herói nacional. Na Bahia, nove anos depois, centenas de homens negros saem às ruas por todas essas causas. Movimento muito mais avançado, que conhecemos pouco”, disse Olavo.
Ele, que está desenvolvendo um documentário sobre o tema, disse que “passamos a admirar outros heróis que não são os nossos desde a infância”, explicando que não é contra que se referencie a memória da elite branca, mas também a do povo negro. “Se não conhecemos nossa ancestralidade de luta e dignidade, perdemos as referências do presente, creio que um dos motivos de tão baixa autoestima do negro”, concluiu.
Mediador da atividade, o presidente do afoxé, Francisco Lima, disse que exibirá o documentário “A Cor do Trabalho” outras vezes e que dará início a uma série de discussões na área, principalmente para alertar sobre a Lei 10.639, referente ao ensino da história e cultura afro-brasileira, “que não pode ficar restrita às salas de aula, mas ocupar todos os espaços possíveis e improváveis”, disse.
O historiador e professor Fred Joi, que também foi um dos palestrantes, comentou o desconhecimento por parte dos estudantes no que diz respeito à história de luta do povo negro e a necessidade da propagação da temática. “A gente só vai ser conhecido por tocar tambor?”, provocou.
Identidade
Ao contar sua experiência de vida, em que apropriou-se da sua identidade negra, a representante do Centro de Referência Nelson Mandela, Maria dos Reis, alertou sobre a importância de aceitar e assumir a negritude para reagir a “essa desqualificação da nossa capacidade e nos valorizar, ocupando todos os espaços”.
A historiadora Anne Rodrigues reiterou essa necessidade. “Quando você não se vê, não se reconhece, não reconhece o outro”. Também apontou o racismo como “relação hierárquica de poder pautada na cor”, sem desassociar da pobreza. “A questão racial também é uma questão de classe e ela tem cor”, concluiu.