
A tradição matriarcal no candomblé se remete à construção dos primeiros terreiros da religião de matriz africana. E foi para discutir o papel das mulheres negras nesse espaço que a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) realizou um encontro nesta sexta-feira (31), no Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (Pelourinho), encerrando a programação do Julho das Pretas.
“Historicamente, o homem que detém o poder de dialogar com o supremo, criador, universo. Mas, em pleno século XVIII, as mulheres que foram escravizadas desconstroem isso e assumem a posição no candomblé”, lembrou Lindinalva de Paula, da Rede de Mulheres Negras da Bahia e do Ilê Axé Omin Ewá (Praia Grande).
Sem desmerecer os babalorixás, a yalorixá Jaciara Ribeiro, do Ilê Axé Abassá de Ogum (Itapuã), destacou a essência em ser mãe. “A mulher é mais sensível, acolhedora. Já conhece o filho espiritual no andar e sabe quando não está bem”, explicou. Ela também defendeu o combate à intolerância religiosa, para qual perdeu sua mãe biológica após ter o terreiro invadido e violado, agravando seus problemas de saúde.
Foi em memória de Mãe Gilda, como é conhecida, que o então presente Lula instituiu, em 2007, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. “É essa luta que me traz para esse espaço, buscando respeito e reparação. Não só agora, mas para o futuro. Quando não estiver mais aqui nessa terra, quero poder sorrir de Orum, vendo meus filhos caminhando livre, sem preconceito e dor”, disse.
Trajetória
Lindinalva de Paula resgatou, no encontro, a trajetória do segmento. “Se eu sou uma mulher religiosa, só estou seguindo os passos de muitas sacerdotisas, que aparecem em todo momento político e revolucionário da nossa história, lutando contra o racismo, machismo e violência”.
Segundo a ativista, as mulheres negras sempre se articularam pelo bem da comunidade. Ainda no período da escravatura, as ganhadeiras inventaram uma poupança para comprarem sua alforria e das demais pessoas. “Porque mulher negra é assim. Pensa na coletividade. Quando se empodera, empodera outras”, afirmou. O grupo surgiu, como contou a palestrante, da junção das associações ialodê, que cuidava dos negócios, e gueledé, responsável pela proteção do simbólico (espiritualidade).
Lindinalva falou, ainda, das Candaces – dinastia de rainhas africanas que comandaram prósperos impérios, de Luiza Mahin, escrava ganhadeira e líder da Revolta dos Malês, em 1835, de Maria Felipa, que lutou contra o domínio português, e das mães Aninha, Simplícia e Menininha, que conseguiram se reunir, na década de 30, com o então presidente Getúlio Vargas para discutir perseguição religiosa.
Sem deixar de esquecer a Irmandade da Boa Morte, as baianas de acarajé, primeiras empreendedoras do país, entre tantas outras referências. “Descendemos dessas mulheres, que nunca aceitaram a opressão”, lembrou, ressaltando ainda que o compromisso do segmento deve ser com a juventude, “porque somos nós as detentoras do saber da comunidade negra”.
Julho das Pretas
Coordenando a mesa, a secretária-executiva do CDCN, Ádile Reis, destacou a importância do Julho das Pretas, em alusão ao Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha (25 de julho), para dar visibilidade às lutas e avanços do segmento. Como parte da programação, também foram realizados debates sobre a Irmandade da Boa Morte, mulher negra e empreendedorismo, formação para o público interno e diálogo sobre capítulo do Estatuto da Igualdade Racial que trata desse público, entre outras atividades.
“Cada contribuição dada pelos participantes, neste período, será importante para o planejamento e execução das políticas públicas voltadas às mulheres negras, a partir da transversalização das ações”, disse Ádile. Participaram, ainda, do encontro o coordenador do Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, Walmir França, e a representante da comissão gestora da Política Estadual de Fomento ao Empreendedorismo de Negros e Mulheres, Elísia Santos.