Em cerimônia que lotou o terreiro Casa Branca, em Salvador, religiosos de matriz africana, acadêmicos, artistas e representantes do movimento negro prestigiaram o lançamento do livro “Equede - A Mãe de Todos”, nesta terça-feira (8), em Salvador. Escrito por Gersonice Azevedo Brandão, a equede Sinha, trata da importância, respeito e reconhecimento que o cargo de equede tem dentro do candomblé. A obra foi publicada pela editora Barabô, com apoio do Fundo de Fundo de Cultura da Bahia, gerido pelas secretarias de Cultura da Bahia (SecultBA) e da Fazenda (Sefaz).
O historiador Jaime Sodré considera a iniciativa importante para a autonomia e visibilidade dos segmentos tradicionais do candomblé. “A nossa grande satisfação é observar que ‘os nossos’ estão escrevendo sobre ‘nós mesmos’. Este livro tem uma responsabilidade muito grande de esclarecer uma série de dúvidas, não somente para o povo de santo, mas para aqueles que não conhecem a beleza da hierarquia do candomblé. Sinto-me muito feliz em dizer que a cultura afro-baiana e religiosa ganha novos adeptos e informantes”, afirmou Sodré, que é ogã do terreiro Bogun.
Para a representante da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Rosy Mary Santos, a iniciativa evidencia a força e presença do segmento feminino nas comunidades de terreiro, desde a ancestralidade. “Aqui acontece um reconhecimento a este matriarcado das mulheres de axé. São mulheres que ergueram os alicerces deste país e merecem reverência, sempre”, frisou. “Temos vivido momentos emblemáticos. É um momento histórico, de empoderamento e resgate da histórica. São valiosos os livros que tratam de mulheres negras, a partir do protagonismo delas próprias”, reforçou a ialorixá Jaciara Ribeiro, vice-presidente do Conselho de Desenvolvimento das Comunidades Negras (CDCN).
O livro é considerado uma publicação histórica, já que a vida de Sinha, nascida dentro do terreiro da Casa Branca, se cruza com a história do mais famoso terreiro de candomblé nagô do Brasil. “Estou feliz, reafirmando minha fé nos orixás e guardando memórias. É preciso preservar e passar o aprendizado para os mais novos. Trata-se da manutenção dos nossos valores religiosos”, ressaltou a equede Sinha.
Com 172 páginas, o livro tem mais de 200 fotos do acervo pessoal da autora, da casa ancestral e dos fotógrafos Dadá Jaques, Flávio Damm, da Fundação Pierre Verger, além de ilustrações exclusivas do artista Carlos Rezende. Foi organizado por Alexandre Lyrio e Dadá Jaques, trazendo ainda histórias inéditas, nunca registradas, como a invasão do Posto Esso imposta contra o terreiro na década de 70.