Lutheria do NEOJIBA forma jovens profissionais para o mercado de trabalho

11/03/2020
“Atenção! Bata na porta antes de entrar. Atividade de concentração e foco”. A mensagem escrita na entrada de cada sala do Atelier Escola de Lutheria (AEL) do NEOJIBA, localizado no bairro do Barbalho, em Salvador, não é em vão: a lutheria é a prática especializada em construir e fazer a manutenção de instrumentos musicais, e dá para imaginar o trabalho que isso requer.

“Cada luthier [profissional que trabalha com lutheria] é um médico. Nosso trabalho é minucioso, porque qualquer erro reflete no desempenho do instrumento”, explicou David Matos, coordenador pedagógico de Lutheria do programa, que é vinculado à Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia (SJDHDS).

Segundo David, em 2008, no segundo ano de existência do NEOJIBA, 30% dos instrumentos do programa já necessitavam de algum tipo de reparo e, desde a época, não havia muitos profissionais especializados no mercado da Bahia e do Nordeste como um todo. Para além da parceria com luthiers de países como França, Suíça e Venezuela, era necessário tornar a atividade local.

Foi aí que, em 2011, o Atelier Escola abriu as portas para receber seu primeiro aluno e, a partir daí, nunca mais parou. Com lutheria para instrumentos de sopros e de cordas, o AEL vem vivenciando uma série de reestruturações, como a do ano final do passado, em que o objetivo passou a ser o de formar mais jovens e dar oportunidade para aqueles mais experientes.

“Não tínhamos ideia de que a lutheria seria um produto do NEOJIBA. Mas, assim como ela transformou minha vida, sei que essa oportunidade é incrível para os jovens, porque os coloca no mercado de trabalho para fazer algo único”, afirmou o coordenador pedagógico.

Para ser um luthier do Atelier do NEOJIBA, é preciso, primeiro, participar de um processo seletivo via edital. Jovens baianos, de 15 a 25 anos, com conhecimento musical básico estão aptos a se inscrever, mas também é importante que os candidatos gostem de cuidar de seus instrumentos e tenham uma boa coordenação motora para passar pela avaliação prática da seleção.

Atualmente, o AEL conta com 14 bolsistas no turno da manhã, aprendendo enquanto trabalham nos reparos e na construção de instrumentos musicais que chegam a custar entre R$ 400 e R$ 100 mil. As práticas são sempre acompanhadas por profissionais. Responsabilidade, atenção e dedicação são fundamentais durante o processo, que dura de acordo com cada pessoa (alguns cumprem a demanda em horas; outros em dias) e depende de fatores como a temperatura e umidade do ambiente, por exemplo.

Veteranos – Além do gosto pela música, os jovens Daniel Pereira, 26, Daniel Marinho, 22, e Daiane Ribeiro, 20, podem dizer que têm outra coisa em comum: a lutheria se tornou um passaporte para o mercado de trabalho.

Há seis meses contratado pelo AEL, Daniel está nos preparativos finais para assumir seu posto no Núcleo Territorial (NT) do NEOJIBA de Feira de Santana – uma iniciativa do programa para estruturar ateliers também no interior do estado. Entre idas e vindas, o rapaz faz parte do programa desde o primeiro ano (2007) e já tocou violino e contrabaixo. Mas, segundo ele, a lutheria o conquistou de um jeito diferente.

“Fazer um trabalho manual, construir algo do zero, sem a interferência de uma máquina, é muito bom. Mudou muito meu psicológico”, contou, explicando, em seguida, sobre a importância da “alma” do violino – peça cilíndrica que é colocada dentro dos instrumentos de arco, indispensável para manter a qualidade sonora. Morador do Nordeste de Amaralina, bairro periférico de Salvador, Daniel espera, em Feira, “ajudar crianças a sonhar” como o ajudaram um dia.

Seu xará e calouro, Daniel Marinho, também vindo do Nordeste, não sonha diferente: desde 2010 no NEOJIBA, o jovem já tocou violino e clarinete e, graças à lutheria, teve a oportunidade de viajar em turnê para a Europa com a Orquestra Juvenil da Bahia, “colando os instrumentos até dentro dos ônibus que iam de uma cidade para a outra”, como lembrou. Bolsista há quase quatro anos, Daniel está a um passo grande da contratação como luthier profissional e sente que fez a escolha certa. “Aqui, estamos no melhor caminho. Um ajudando o outro a fazer o que a gente gosta”, falou.

Já Daiane, a mais nova em idade, começou bem cedo na arte de construir e reparar instrumentos musicais. Aos 16 anos, a jovem moradora de Tancredo Neves, na capital, já fazia parte do AEL. Agora, é a mais nova luthier contratada para o NT de Teixeira de Freitas, a mais de 808 quilômetros de Salvador. “Estou dando mais um passo para o crescimento. Lá, eu vou colocar meus valores em prática e subir mais esse degrau para chegar onde sonhei”, disse, decidida, quando perguntada se a distância do novo local de trabalho seria um problema.

De acordo com Ana Vilas Boas, coordenadora do NEOJIBA na SJDHDS, o Atelier Escola de Lutheria une transformação pessoal e profissionalização. “Uma de nossas metas é proporcionar outro mundo para eles, mas também incentivar a formação profissional e a continuidade nos estudos, diferenciais no mercado concorrido de hoje”, destacou.

Nova geração – Há apenas seis meses como bolsista do AEL, tudo o que Clebson Carlos, 20, mais deseja é ser um bom luthier. Ele é membro de uma filarmônica em Lauro de Freitas e sempre teve curiosidade no trabalho realizado pela lutheria, até que surgiu a oportunidade: se inscreveu no edital do NEOJIBA, passou na seleção e, futuramente, será o primeiro integrante da filarmônica capaz de dar manutenção nos instrumentos. “Aceitei a chance de braços abertos. Agora o que eu quero é me dedicar cada vez mais”, afirmou.

Os planos e perspectivas de futuro são tangíveis para os jovens estudantes de lutheria. Como é o caso do soteropolitano, Marcelo Gavazza, 22, que pretende abrir um pequeno negócio, onde ele vai poder dar o melhor de si na confecção dos instrumentos musicais. E, mesmo na condição de bolsista, Marcelo já colheu frutos dessa dedicação: seu trabalho, classificado como “o cavalete de violino referência no Atelier”, está estampado no mural da oficina, servindo de inspiração para todos: alunos e professores.

“Não foi falado para mim que eu poderia contribuir para a mudança de perspectivas deles, e só posso me sentir orgulhoso. A lutheria é um produto que está nos bastidores, diferente da orquestra. Mas somos o pit stop numa corrida de Fórmula 1: sem isso, não funcionaria”, finalizou, emocionado, David Matos.

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