Espaço símbolo de luta abolicionista sedia curso para pessoas assistidas pelo Corra pro Abraço

17/09/2019
Entre tintas, pincéis, esponjas e técnicas, o curso de Maquiagem Artística se apresenta para 16 pessoas assistidas pelo Programa Corra pro Abraço, da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social do Estado da Bahia, como uma possibilidade de qualificação profissional, geração de renda e redução de danos. Como cenário para a construção deste saber, um lugar ancestral: a Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), primeira organização civil negra brasileira, que completou na segunda-feira (16), 187 anos de existência. Desde agosto, pessoas em contexto de vulnerabilidade socioeconômica utilizam a sede histórica da associação, no Pelourinho, em Salvador, para os aprendizados sobre o presente e o passado, conectados através da promoção da igualdade racial.

“O curso oferece sessões práticas e fornece embasamento teórico, importante para que a qualidade das maquiagens produzidas seja o diferencial no trabalho realizado. A maquiadora utiliza a metodologia teórico vivencial, a aplicabilidade (maquiagem em outro rosto e auto maquiagem) e demonstrações com foco no desenvolvimento das técnicas”, destaca Luciana Rocha, coordenadora Pedagógica do Corra pro Abraço. A profissional contextualizou a importância de o curso ocorrer na SPD. “É uma organização negra histórica de luta pelos direitos da população negra desde o século XIX. Compravam alforrias e pagavam cursos de formação profissional para nossos antepassados, que, após a abolição inconclusa, precisaram garantir formas de trabalho para a subsistência”.

Segundo Francisco Monteiro, funcionário da SPD, a associação segue em busca de apoiar projetos com foco na população negra em condições desfavoráveis. “O Corra pro Abraço mandou um ofício falando sobre o projeto, a importância, o período e cedemos o espaço colaborativo, disponibilizado para a comunidade negra a fim de fomentar essas ações e seguir os irmãos que nos antecederam, trazendo esse afroempreendedorismo. A SPD é pioneira nisso”, enfatiza. E relembra: “no passado, a sociedade instituiu um valor, a uma pequena taxa de juros, para fomentar pequenos negócios em Salvador. Simbólico, mas proporcionava que as pessoas pudessem conduzir suas vidas com maior dignidade”.

Um dos sócios atuantes mais antigos da SPD, Edgar das Neves, conta que o prédio foi comprado em 1951 por um dos ex-presidentes, mas que a associação começou em 1832, com 19 homens negros, alforriados, na capela dos XV Mistérios, no Santo Antônio Além do Carmo. “Esses 19 homens, liderados por Manoel Vítor Serra, começaram o trabalho”, conta. E completa: “Todos nós fazemos nessa casa um trabalho de doação. Quem não pode doar dinheiro, doa o seu trabalho. Eu sou um deles. Tenho a satisfação de dizer que hoje, aos 87 anos, ainda sou o primeiro secretário da assembleia, onde se fazem as eleições, se empossa, se destitui e onde se fazem as prestações de conta”. Atualmente a SPD conta com uma mulher negra como presidente: Lídia Margarida, a primeira a ocupar esse cargo nos quase 200 anos da instituição.

Para a assistida Nicole Ágata, o curso está sendo diferente por dois fatores: a novidade da pintura e o espaço da realização. “Estou achando as oficinas ótimas, porque a professora ensina bem. Aprendi quais são cada uma das tintas: a pastosa, a líquida, a seca. E achei uma coisa diferente, porque eu nunca tinha entrado numa dessas casas do Pelourinho para fazer cursos. Foi a primeira vez na minha vida”, revela. Para Heloína de Jesus, que possui quase 80 anos, está sendo interessante aprender a maquiagem artística pela “possibilidade de evoluir” e pelo conhecimento. “Ótimo. Soubemos sobre muitas coisas antigas!”.

Laís Abreu, da Lua Cheia Produções e educadora do curso, confessa que ficou muito impressionada com a força de seu Edgar. “Acho que o pessoal gostou bastante de conhecer a história do lugar. Porque quando você entra em uma sala, a princípio é só uma sala. Não se sabe o que aconteceu ali antes, como aquela sala surgiu. Falar do contexto em que eles estão inseridos é muito importante, porque se sentem mais participativos, como parte do contexto e mais respeitados”, avalia. E finaliza: “é uma história muito forte. De resistência, de expansão e de luta”. O curso tem previsão de encerramento em 03 de outubro e na semana seguinte haverá uma cerimônia de certificação.