Cinco internos da Case em Salvador se destacam em nota do Enem

01/02/2018
Por Henrique Almeida

Antes de atravessar o portão verde da Comunidade de Atendimento Socioeducativo (Case), em Tancredo Neves, na capital baiana, é preciso permitir que o silêncio e a solidão que avizinham o local enterrem os preconceitos do lado de fora.

Lá dentro, entre os 318 adolescentes que cumprem medida socioeducativa, cinco se destacam pelas notas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para Pessoas Privadas de Liberdade (PPL).

De um total de 20 jovens inscritos pela Fundação da Criança e Adolescente (Fundac), Roberto Costa**, 19, Mário Conceição**, 16, Felipe Silva**, 17, Carlos Santos**, 20, e Cláudio Lima**, 19, foram os únicos que não zeraram nenhum dos quatro cadernos nem a redação.

Dois deles estão internados há um ano e 9 meses, outro há 10 meses e, o último, há 2 anos e 9 meses. As médias totais alcançadas variam entre 400 e 490. As notas suficientes para os cursos de psicologia, agropecuária, história e educação física, que almejavam. “Eu gosto de livros de história sobre a 2ª Guerra Mundial. Leio romances. Também livros de Augusto Cury. A leitura ajudou na redação”, diz Roberto.

Os adolescentes recebem o suporte de 16 professores estaduais e 11 municipais, além de equipe de psicólogos e assistentes sociais. As unidades de ensino que dão suporte ao local são o Colégio Estadual Governador Roberto Santos (anexo) e a Escola Municipal Carlos Formigli.

Para Carlos Santos, cursar agropecuária seria a possibilidade de falar com mais propriedade sobre o movimento sem terra, do qual a mãe faz parte. “Leio livros técnicos sobre o assunto, mas também foco em redação e matemática”.

A diretora da Fundac, Regina Affonso, destaca que os resultados fazem parte de um processo educativo visando, também, a profissionalização, por meio de parcerias com o Instituto federal da Bahia (Ifba) e o Senai.

“Visamos a reconstrução do adolescente a partir do momento em que ele é internado. O nosso olhar não é sobre o que eles fizeram lá fora, mas proporcionar ferramentas para que possam construir uma nova vida a partir de ações desenvolvidas na Case”, explica.

O apoio dos pais, também, é fundamental para que os adolescentes consigam passar pelo processo socioeducativo e de reinserção social “Percebemos um fortalecimento do vínculo familiar. Além disso, englobamos a diversidade de religiões”, frisa o coordenador técnico de internação provisória, Girlonel Donatividade.

Sobre as mudanças que ocorreram após contato maior com os livros, os cinco são unânimes em afirmar que as páginas, as aulas e as ações de esporte e música contribuíram para o desejo de mudança de vida.

“Aqui dentro mudamos nossa forma de pensar. Não quero mais fazer coisa errada, quando sair daqui vou mudar de vida e mudar a imagem de pobre, preto, favelado e ladrão”, diz Felipe.



**Nomes fictícios

*Sob a supervisão da editora Meire Oliveira



Originalmente Publicada no Jornal A Tarde, em 31.01.2018