Priscilla Leonnor: uma rica trajetória acadêmica de valorização à comunidade Negro Surdo

07/12/2018
Uma trajetória de vida que percorreu e percorre, até hoje, pela contramão do preconceito. A jovem Priscilla Leonnor Alencar Ferreira, de 30 anos, tem orgulho em afirmar e valorizar a mulher que é: “mulher preta, surda e mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb)', afirma Leonnor.

Natural de João Pessoa, capital da Paraíba, Priscilla mudou-se para Salvador, na Bahia, logo nos primeiros anos de vida. Ainda na gestação da mãe, foi diagnosticada com surdez, decorrente de rubéola. “A formação do quem sou eu, da minha identidade, de onde venho e para onde vou, foi reconstruída aqui na Bahia. Foi onde tudo começou, o despertar para a minha etnicidade, paralelo à minha força de resistir aos preconceitos racial e ouvintismo – preconceito contra os surdos”, explica Priscilla. A jovem é a prova viva de que o preconceito não resiste. O que resiste, de fato, “é o próprio querer e o apoio de pessoas, amigos e familiares caminhando ao nosso lado”, enfatiza.

Priscilla conta que alguns nomes, de muita importância, fazem parte da sua trajetória de vida, principalmente nas esferas de autoafirmação, acadêmica e profissional. “Começo falando da Cintia, uma grande amiga. Foi ela quem me apresentou e me ensinou os valores que tenho hoje – de valorização à minha negritude. Quando a conheci, foi como acordar de um sono, levantar e me enxergar como mulher preta. A partir daquele momento, as mudanças surgiam, coloquei tranças em meu cabelo, passei a admirar minha cor. Já estava meio caminho andado para ganhar o mundo”, afirma a jovem.

Após esse momento, Priscilla passou a compreender que precisava entrar e compartilhar experiências na Comunidade Surda. Neste momento, ela relembra, com muito carinho, de Sandro Pereira, coordenador do Movimento de Negro Surdo do Brasil. “Meu encontro com ele foi no 1º Congresso de Inclusão Social dos Negros Surdos, em São Paulo, evento este coordenado pelo Sandro. Foi um encontro maravilhoso! Não perdi tempo, colei nele e aprendi um novo mundo: repleto de sentidos, significados e inclusivo. Naquele momento, comecei a sair da invisibilidade”, relatou.

Em 2013, Priscilla trouxe para a Bahia o 4º Congresso de Inclusão Social dos Negros Surdos, apresentado na Universidade Estadual da Bahia (Uneb), em Salvador. Através desta experiência, Priscila se tornou multiplicadora, na Bahia, dos aprendizados (estratégias de empoderamento; como enfrentar o problema do bullying contra os negros surdos nas escolas; a quebra de barreiras sociais; e a valorização da cultura negra surda pelo conhecimento profundo de sua identidade), adquiridos na conferência paulista, passando, então, a ser referência nacional.

Na iniciação da sua trajetória acadêmica, começou a estudar pedagogia em faculdade privada, ao mesmo tempo em que cursava Letras com Libras na Universidade Federal da Bahia (Ufba), campus Salvador. “Quando comecei os meus estudos, não foi fácil. Não tinha intérprete e, na época, as leis de Libras estavam começando a surgir para a pessoa com surdez", diz.

Neste momento, quem surge é a Thalita Araujo, intérprete de confiança. "Thalita caminhou comigo durante os quatro anos de graduação e, até hoje, me acompanha por onde quer que eu vá”, afirma Priscila, pontuando também que foi a Thalita quem a ajudou na pós-graduação em Libras. A partir de 2014, o acesso a intérpretes e o crescimento de políticas públicas para a pessoa com surdez começou a ser facilitado por meio da Central de Interpretação de Língua Brasileira de Sinais da Bahia (Cilba), gerida, atualmente, pela Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS).

Atualmente professora auxiliar da Universidade Estadual Sudoeste da Bahia (Uesb) e finalizando o Mestrado na Uesb, campus Vitória da Conquista, Priscilla explica que sua pesquisa “tem foco a Comunidade Negro Surdo e a Historização desse povo dentro da Educação Básica nas Escolas. Fiz diversas entrevistas e essas experiências foram relatadas no meu projeto. Me emocionei e me envolvi bastante, porque falei sobre traumas, dores nas escolas, sobre o preconceito com etnicidade e com pessoas com deficiência, vividos também por mim", conta, emocionada. "Fiz este trabalho pensando em como construir uma educação melhor para estas crianças”, completa Priscila, que está se preparando para, em breve, apresentar a defesa da dissertação.

Com sede de sonhos e confiança em transformar a educação em um espaço de saber inclusivo, Priscilla conta que sonha “que aqui na Bahia a gente melhore a relação do negro surdo em sala de aula, para valorizar a cultura, identidade e ampliar a comunidade surda em diferentes espaços de saberes, desde a educação básica até a formação superior. É lutarmos para termos direitos igualitários entre surdos e ouvintes, para que o conhecimento chegue a todos e esteja para todos”, conclui Leonnor.

Sobre a Cilba -

Com funcionamento no prédio da SJDHDS, na 3ª Avenida do Centro Administrativo da Bahia (CAB), em Salvador, o atendimento da Central é de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 12h e das 13h30 às 17h30, com intérpretes à disposição para atendimento presencial ou online de surdos, pessoas com deficiência auditiva e oralizados que se comunicam por Libras e que precisam de apoio para ter acesso aos serviços ofertados pelo poder público. Para utilizar o atendimento da Cilba, o surdo precisa se cadastrar pessoalmente na Central, levando Carteira de Identidade, CPF, cópia da audiometria e uma foto 3x4. Já para os casos de solicitação de intérprete por uma instituição, deve-se encaminhar um ofício com cinco dias úteis de antecipação.

Tradução para o Português: Irzyane dos S. Cazumbá
Tradução para a Libras: Laís Alves, intérprete da Cilba