24/01/2017
Não à toa Isabel Oliveira se maquiou e colocou o seu melhor vestido e Maria Conceição gritou “eu consegui”. A cerimônia de certificação de cerca de 40 pessoas em situação de rua realizada na tarde da quinta-feira, 19, no auditório da Defensoria Pública do Estado da Bahia, no bairro do Canela, Salvador (BA), emocionou à todos (as) presentes e poderia ter status de formatura!
Com muita alegria, troca de impressões e sugestões, o momento marcou o fechamento dos cursos profissionalizantes promovidos em 2016 pela Superintendência de Políticas sobre Drogas e Acolhimento a Grupos Vulneráveis (SUPRAD), da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a ONG Comunidade Cidadania e Vida (Comvida) e o projeto Ponto de Cidadania, que atualmente integra as ações do Programa Corra pro Abraço - iniciativa voltada para usuários de drogas de substâncias psicoativas em situação de rua ou em contextos de vulnerabilidade.

Familiares dos (das) participantes dos cursos também marcaram presença e acompanharam a certificação. Foto: Ascom/Corra Pro Abraço/SJDHDS
A população em situação de rua das imediações do “Pela Porco”, área localizada na Sete Portas e das proximidades da Praça Marechal Deodoro da Fonseca, mais popularmente conhecida como “Praça das Mãos”, no Comércio, receberam certificados dos cursos profissionalizantes nos segmentos de adornos e adereços, serviços gerais e camareiro (a). Cursos desta natureza têm uma importância ímpar por, além de contribuir na inserção de uma parcela desfavorecida socialmente, ainda fornecer ocupação diária e instigar o desenvolvimento pessoal através dos estudos, da formação de grupos, do fortalecimento da autoestima e apropriação de outros territórios.
A atividade não foi apenas uma entrega de documentos, mas um momento de concretização de sonhos e autoempoderamento destas pessoas, trabalhadoras com ou sem emprego formal, que lutam diariamente para sobreviver. “O certificado tem um significado muito grande porque os conhecimentos adquiridos nos cursos vão ajudá-los para o resto de suas vidas. E é um prazer estar junto deles e delas diariamente, construindo estratégias e intervenções”, destacou Tiago Cerqueira, coordenador do Projeto Ponto de Cidadania que na época realizou os cursos por intermédio da Cetad/UFBA.

O Projeto Ponto de Cidadania esteve a frente dos cursos profissionalizantes em 2016. Foto: Ascom/Corra Pro Abraço/SJDHDS
Emanuelle Silva, diretora de Gestão e Monitoramento de Políticas sobre Drogas da Suprad, agradeceu a oportunidade de “aprender a fazer política sobre drogas com a população de rua que faz uso de drogas”. Segundo a gestora, poucas são as vezes que estas pessoas são consultadas sobre o que desejam ou precisam, por isso projetos como o Ponto de Cidadania e programas como o Corra Pro Abraço existem, para que tudo seja pensado e construído com os beneficiários dos serviços. “Não é nenhum favor o que estamos fazendo. Existe política pública e recurso público que está sendo pensado para isso. E o desafio da Suprad é pensar políticas junto outras secretarias e outros parceiros. Políticas, por exemplo, de geração de trabalho e renda que os atendam de fato”.
Pesquisas nacionais apontam que a maioria da população em situação de rua exerce alguma atividade remunerada, contrariando o senso comum de que grande parte destas pessoas sejam “mendigas” ou “pedintes”. Para Trícia Calmon, Coordenadora Pedagógica do Programa Corra pro Abraço, é preciso pensar formas de ampliar essas capacidades já desenvolvidas. Ela destacou ainda que a possibilidade do programa participar dessa certificação é necessária para o planejamento de outras ações. “Gostaríamos de dialogar com as pessoas que fizeram esses cursos e se interessaram pela estratégia para pensarmos em algo novo em que possamos nos aprofundar, como, por exemplo, o trabalho associativo. Ou seja, para que possamos prestar nosso serviço, fortalecendo-os, a partir de uma formação autônoma”.

Formadores (as) do Programa Corra pro Abraço também estiveram presentes na cerimônia. Foto: Ascom/Corra Pro Abraço/SJDHDS
Jaciara Oliveira, que vive em situação de rua, destacou que só tem a “agradecer pela oportunidade maravilhosa”. “Vocês nos abraçaram e isso não tem dinheiro que pague. Uma honra. Isso bota a gente para cima. Vamos crescendo com essa força de todos nós que somos sofredores e corremos atrás”, disse emocionada e completou dando propostas de cursos. “Peço uma ajuda porque a gente precisa também aprender outras coisas, como saber sobre reciclagem. Juntar todo mundo e ganhar dinheiro nisso aí. Ou fazer uma pedreira de rejuntamento [ referência aos cursos na área de construção civil]. Essas coisas”.
Valnei Silva, presidente da Comvida, ressaltou que já há um diálogo com o Ponto de Cidadania em fazer novos cursos sobre associativismo, cooperativismo, reciclagem, rejunte de parede, instalação elétrica básica, entre outros. “Já qualificamos mais de 5 mil pessoas no estado da Bahia. As equipes do Corra e do Ponto são capacitadas. Gostam do que fazem e fazem o para e com a população em situação de rua. É um processo de construção”.
A entrega dos certificados contou também com a participação dos formadores das equipes do Ponto de Cidadania e do Corra Pro Abraço.O cuidado na escolha dos cursos, a curta duração, a disponibilização de lanche e transporte foram elementos importantes para garantir o envolvimento e participação efetiva do público beneficiário. Das 40 pessoas certificadas, 22 foram localizadas e conseguiram compareceram na cerimônia.