Carta da Bahia: Pela liberdade e dignidade no mundo do trabalho

26/09/2019
As representações da Comissão Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo – COETRAE- BA e demais Coetraes, em conjunto com instituições federais e estaduais públicas e entidades da sociedade civil organizada, abaixo listadas,reunidas em Salvador, no dia 18 de setembro de 2019, por ocasião do “Seminário Internacional 10 Anos da COETRAE – BA”, tendo em vista as ameaças de retrocesso na luta contra a escravidão contemporânea no Brasil, conclamam toda a sociedade brasileira à reflexão:  

O país vinha atuando de maneira sistemática e consistente na luta contra o trabalho escravo desde 1995, quando declarou oficialmente sua existência em território brasileiro, a exemplo da criação dos Grupos Móveis de Fiscalização, a estruturação da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo - CONATRAE, o desenho e implantação dos I e II Planos Nacionais para a Erradicação ao Trabalho Escravo, o aprimoramento do conceito do trabalho escravo conforme artigo 149 do Código Penal, publicação periódica do cadastro nacional de empregadores flagrados submetendo trabalhadores ao trabalho escravo (Lista Suja), a concessão do Seguro Desemprego resgatado, atingindo milhões de famílias nos estados de maior incidência do problema, dentre outras ações que levaram o Brasil ao papel de protagonista na luta contra o trabalho escravo.

Apesar dos avanços, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer na erradicação do trabalho escravo.O país segue enfrentando questões estruturais, fatores que alimentam o problema, a exemplo das desigualdades sociais e concentração de renda, que contribuem para a existência de um alto percentual da população em situação de pobreza, privada de condições mínimas que garantam sua cidadania e dignidade, assim como privados de uma educação de qualidade, que não só possibilite a ascensão melhores oportunidades de trabalho e geração de renda, mas que possibilite a consciência sobre seus direitos humanos e trabalhistas, bem como privados de acesso à seguridade social que efetivamente lhes assegure a prestação de benefícios e serviços de proteção social pelo Estado que possam combatem situações de carência devido à incidência de riscos sociais.

Aliado a essas questões, os atores que lutam contra a escravidão têm enfrentado uma diminuição de suas capacidades de atuação. Cortes orçamentários têm levado à diminuição da capacidade de fiscalização e repressão aos criminosos que submetem trabalhadores e trabalhadoras ao trabalho escravo. A desregulamentação do trabalho em um país de tantas desigualdades contribui para a manutenção de um ambiente fértil para a exploração, e o discurso crescente de que a Consolidação das Leis do Trabalho - CLT impedem o crescimento do país, parece tornar ainda mais distante um cenário que possibilite o fim de violações como o trabalho escravo. 
Finalmente, nos últimos três anos, os discursos que pregam pelo fim da luta contra o trabalho escravo, usando o argumento absurdo e  de que ele não existe, ou o discurso raso de que ele é mal conceituado começam a tomar corpo. Ainda que contraposto pela realidade da situação daqueles que vivem e trabalham em condições degradantes, desumanas e indignas e por todos aqueles que lutam e se opõem à escravidão contemporânea, as tentativas de desmontar os avanços conquistados nos últimos 14 anos parecem ganhar terreno.  

Nos últimos meses o obscurantismo parece avançar a passos largos. Estruturas de diálogo social e de defesa dos direitos humanos foram esvaziadas, enfraquecidas ou extintas. A sociedade civil, pilar de pressão social e fiscalização da política pública,tem sua atuação restringida. As forças de repressão cada vez mais sem autonomia e sem condições de trabalho e lideranças sociais vivem sob constantes ameaças, muitas vezes aniquiladas em plena luz do dia.
Diante do quanto exposto,instituições presentes no “Seminário Internacional 10 Anos da COETRAE – BA”, repudiam o enfraquecimento das estruturas políticas de prevenção e enfrentamento ao trabalho escravo e expressam com veemência a necessidade de que:

As estruturas de fiscalização do trabalho escravo sejam fortalecidas e dotadas de recursos e pessoal necessário para que o trabalho de repressão ao trabalho escravo continue sendo uma realidade;

Ameaças contra as autoridades e lideranças sociais que lutam contra o trabalho escravo sejam imediatamente investigadas e os responsáveis por essas ameaças efetivamente punidos;

As instâncias de fomento, diálogo e discussões sobre o enfrentamento ao trabalho escravo sejam mantidas e fortalecidas, garantindo a participação irrestrita da sociedade civil organizada e de todos os atores com potencial de contribuir com a luta contra a escravidão contemporânea;

Instrumentos e políticas como a Lista Suja e o Seguro desemprego sejam mantidos e aprimorados;

Que o conceito de trabalho escravo, conforme disposto no artigo 149 do Código Penal, considerado internacionalmente como um conceito adequado e moderno, seja defendido de qualquer ataque ou tentativa de modificação que o restrinja;

Programas de prevenção, sejam fortalecidos e implementados em todos os estados brasileiros;

Seja criada e implementada uma Política Nacional de Atenção às Vítimas do Trabalho Escravo, buscando sua inserção socioeconômica pelo  trabalho decente e fortalecendo suas comunidades de origem para que estas deixem de ser terrenos férteis a cooptação para o trabalho escravo;

Seja implementado um programa permanente de formação sobre trabalho escravo para gestores públicos para que estes entendam o conceito, causas e efeitos do trabalho escravo e possam agir de maneira qualificada em seu enfrentamento;

Que os setores econômicos onde há incidência de trabalho escravo sejam envolvidos nas ações de enfrentamento ao trabalho escravo, como maneira de garantir que o crescimento econômico do país não seja impactado negativamente, pela falta de ação na garantia de cadeias de produção sustentáveis e livres de violações de direitos.

Que seja articulada uma rede entre as Comissões Estaduais de Erradicação do Trabalho Escravo, para uma atuação articulada e mais efetiva de enfrentamento, assegurando-se entre elas um ágil fluxo de informações sobre trabalhadores resgatados fora de seu estado de origem.

Salvador, Bahia, 18 de setembro de 2019.

Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo da Bahia - COETRAE-BA 
Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social – SJDHDS 
Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte – SETRE
Secretaria da Educação – SEC
Secretaria de Desenvolvimento Rural - SDR
Secretaria do Meio Ambiente - SEMA
Secretaria de Segurança Pública - SSP
Ministério Público do Trabalho - MPT
Defensoria Pública da União - DPU
Superintendência Regional do Trabalho  - SRTb
Organização Internacional do Trabalho - OIT
Polícia Rodoviária Federal - PRF
Polícia Federal - PF
Comissão Pastoral da Terra - CPT
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG
Grupo de Pesquisa GEOGRAFAR
Federação dos Trabalhadores na Agricultura Assalariados do Estado da Bahia - FETAG
Departamento Intersindical de Estudos Estatístico e Socioeconômico - DIEESE
Associação dos Magistrados da 5°Região – AMATRA 5
Sindicato dos Auditores Fiscais do Estado da Bahia – SAFITEBA
Instituto do Trabalho Decente - ITD
Avante. Educação e Mobilização Social - ONG

Apoiam: 
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Estado do Ceara - CE
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Estado do Maranhão - MA
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do  Estado do Pará - PA
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Estado de Minas Gerais - MG
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do  Estado do Amazonas - AM
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Estado do Rio de Janeiro – RJ
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Estado de  São Paulo - SP
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Estado do Mato Grosso - MT
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do  Estado do Mato Grosso do Sul - MS
Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Distrito Federal - DF
Sindicato dos Trabalhadores Domésticos da Bahia – Sindoméstico. 
Rede Grito Pela Vida 
Projeto Resgate Brasil  - ONG