Encontro discute perfil socioeconômico e político da mulher agricultora do semiárido baiano

12/07/2021

A primeira atividade do seminário virtual Cadernetas Agroecológicas: Tecendo Saberes e Vivências, que constou da aplicação de um questionário aplicado junto a 304 agricultoras familiares atendidas pelo projeto do Governo do Estado, Pró-Semiárido, em 32 municípios de abrangência, foi realizada na última sexta-feira (09).

Os dados obtidos permitiram caracterizar o perfil socioeconômico e de participação política dessas mulheres, a partir da experiência com a utilização das Cadernetas Agroecológicas. A ferramenta metodológica utilizada pelo Pró-Semiárido permite à agricultora fazer a gestão de tudo o que é produzido na propriedade familiar, a partir das anotações do que é vendido, trocado, doado e consumido.

As respostas revelaram realidades diferentes, a depender do Território de Identidade, mas apontou cenários semelhantes no que diz respeito ao acesso das mulheres pretas, assentadas, quilombolas e de comunidades de fundo de pasto, à terra e a água, a outras políticas públicas e à sua participação social.

“O acesso à terra e à água é primordial para que elas não mudem suas trajetórias. No caso do acesso à terra, por exemplo, 80% das agricultoras participantes da pesquisa, na região de Casa Nova, declaram que é proprietária da terra, mas o documento está em nome do marido ou nem existe. Ela diz isso por uma questão de pertencimento, mas o fato dela não ter a terra registrada em seu nome, impede o acesso a políticas”, explica a técnica do Serviço de Assistência Socioambiental no Campo e Cidade (Sajuc), Dulce Carvalho.

Além da Sajuc, a Associação Regional dos Grupos Solidários de Geração de Renda (Aresol) e a Associação de Pequenos Produtores de Jaboticaba (APPJ) apresentaram suas experiências, com a aplicação dos questionários.

Mulheres como a agricultora Maria Neide, da comunidade Santa Cruz, em Casa Nova: “A caderneta agroecológica veio pra que a gente pudesse reconhecer os valores que a gente gastava lá fora. Hoje os valores estão vindo do meu quintal. Só em pensar que antes a gente comprava frutas com agrotóxico e hoje são frutas saudáveis! A gente levava nosso dinheiro lá fora e hoje a gente tá tendo esse valor em casa”.

Entre os dados apresentados está ainda o contraste no enquadramento da renda gerada pela agricultora, quando comparada ao trabalho desenvolvido por ela na propriedade rural. Os resultados demonstraram também que os espaços de atuação política e social dessas mulheres, em sua maioria, são as associações comunitárias, igrejas e sindicatos, pontos de partida para a conquista de espaço em outras instâncias.

“A nossa proposta não foi apenas visibilizar o resultado da pesquisa, mas compartilhar e refletir o processo do trabalho com essa ferramenta político-pedagógica que é a Caderneta Agroecológica, demonstrando que ela necessita de outros elementos para que a gente possa colher as informações e cruzar dados, a exemplo do questionário socioeconômico”, explica a assessora de gênero do Pró-Semiárido, Elizabeth Siqueira.

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Já a professora Laeticia Jalil, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e do GT de Mulheres da ANA, destaca o potencial dos questionários e do trabalho das Cadernetas Agroecológicas: “Um todo para iluminar ações de assistência técnica e extensão rural (Ater) mais qualificadas”.

O seminário contou com a participação das entidades de Assessoramento Técnico Contínuo (ATC), associações, universidades, projetos órgãos e institutos da Bahia e de outros estados. A programação do seminário Cadernetas Agroecológicas: Tecendo Saberes e Vivências, contará com dois outros encontros temáticos, no dia 16/07, sobre a construção dos Mapas da Agrobiodiversidade; e no dia 23/07 acerca dos resultados da utilização das Cadernetas Agroecológicas. As atividades acontecerão em sala virtual pela plataforma Zoom, das 8h30 às 12h.

O projeto Pró-Semiárido é executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional, empresa vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), cofinanciado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).



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