Com um público estimado de 150 pessoas foi realizado, nesta sexta-feira (30), no Parque de Exposições de Salvador, o II Simpósio de Pesquisas e Experiências em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural, que tem como tema Conservação, Restauração e Uso Sustentável dos Biomas Baiano – enfoque na Agricultura Familiar. A ação foi promovida pela Coordenação Executiva de Pesquisa, Inovação e Extensão Tecnológica (Cepex), vinculada à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Rural (SDR), em parceria com a Rede Baiana de Pesquisa, Ensino e Extensão em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural Sustentável.
O evento, que acontece durante a 9ª edição da Feira da Agricultura Familiar e Economia Solidária, até o próximo domingo (02), em paralelo à 31ª Fenagro, contou com a presença de gestores públicos, reitores e pró-reitores de universidades, além de dirigentes das instituições da Rede e lideranças da agricultura familiar.
O objetivo foi apresentar os trabalhos, selecionados por meio de chamada pública, que vem sendo desenvolvido por pesquisadores, professores e estudantes universitários, estudantes da rede federal e estadual de educação profissional, estudantes e monitores das Escolas Famílias Agrícolas, extensionistas de entidades prestadoras de assistência técnica e extensão rural (ATER) e agricultores familiares baianos.
De acordo com o coordenador da Cepex, José Tosato, é crescente a busca dos agricultores por tecnologias: “É por isso que nós estamos promovendo essa aproximação. O agricultor familiar precisa se sentir a vontade para demandar uma pesquisa, ou tecnologia, sentindo que o conhecimento e sabedoria tradicional dele tem valor, que precisa ser reconhecido pela academia. Só assim conseguiremos promover esse intercâmbio”. Ele salientou ainda que o tema desse ano foi escolhido por ser uma grande alternativa socioeconômica para a agricultura familiar, pela quantidade de espécies da biodiversidade, incluindo a transição agroecológica e ações de conservação de solo, de água, além de apresentar pesquisas voltadas para a mitigação e adaptação às mudanças do clima.
Entre os temas apresentados estavam Restauração e uso sustentável dos biomas pela agricultura familiar; Mapa de Áreas Prioritárias para Conservação – Bahia; A proteção legal da sociobiodiversidade; e Experiências agroecológicas no Sul da Bahia.
O reitor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Silvio Soglia, salientou que é necessário retomar o conceito de um encontro de saberes, pensando no impacto que as pesquisas podem gerar na vida das pessoas: “O universo acadêmico precisa se abrir para reconhecer, nas populações tradicionais e diversos segmentos da sociedade, o conhecimento, que não é só o científico, organizado, nos moldes da academia e da ciência, que pode trazer resultados importantes, por estarem dentro da realidade”.
Soglia ressaltou também que ficou impressionado com a diversidade que viu na 9ª Feira da Agricultura Familiar, não só do ponto de vista da produção, mas também da valorização econômica e como um espaço de encontro, aspectos fundamentais para estabelecer relações: “Essas relações dizem o que poderemos fazer por esse segmento importante da economia baiana”.
O Simpósio integra a estratégia da SDR em promover a articulação e aproximação entre as instituições de ensino, pesquisa e extensão com a agricultura familiar, desenvolvimento rural e povos e comunidades tradicionais e promove a valorização de trabalhos experimentais de extensionistas e dos saberes tradicionais dos agricultores e povos e comunidades tradicionais.
Nereide Segala, agricultora familiar no município de Pintadas, Território Bacia do Jacuípe, explicou que a comunidade sentiu a necessidade de adaptação aos desafios das mudanças climáticas: “Foram realizadas pesquisas do clima dos últimos 50 anos e, cientificamente percebemos a perda de 300 milímetros de chuva nesse período, com o registro do aumento da temperatura de 1.75 graus: “Isso nos deu a certeza de que, cada vez mais, as mudanças precisam ser monitoradas e acompanhadas por pesquisas, para nos orientar novas formas de produzir”. Segala ressaltou que depois do resultado da pesquisa foi possível realizar as mudanças na produção de leite, aprendendo, por exemplo, o que era necessário para a alimentação das vacas: “Temos cinco produtores, com até cinco vacas cada um, que estão produzindo 100 litros de leite ao dia, apesar das adversidades climáticas. Nós precisamos cada vez mais ter acesso a esses conhecimentos”.
O professo Aurélio Lacerda, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), que representou a Rede Baiana, destacou que a Rede tem uma importância incalculável: “É a primeira vez, nesses últimos anos, que nós nos organizamos com docentes e pesquisadores, que se preocupam com a vida concreta das comunidades que vivem da agricultura no Território Nacional e baiano, a se voltarem para as dificuldades conhecidas no nosso Sertão e Semiárido, de homens e mulheres sertanejos, com uma vida cultural e existencial própria, culinária, literatura e religião. Nós não podemos abrir mão desses conceitos antropológicos, sociológicos, filosóficos, daí a preocupação de não dissociar a pesquisa das realidades culturais, do trabalho, da produção e do cuidado com a terra”. Lacerda afirmou ainda que os investimentos na agricultura familiar é única forma digna de fixar às famílias à terra.
Premiação
A programação do Simpósio contou ainda com a apresentação e avaliação de 92 tecnologias que foram certificadas, além da premiação de experiências apresentadas e avaliadas. Entre as experiências premiadas está o Farinheira Sustentável, desenvolvida por Geili Viviane, do município de Teixeira de Freitas, Território de Identidade Extremo Sul, com o objetivo de resolver o problema ambiental causado pela má gestão dos resíduos na unidade de beneficiamento da mandioca, que envolve também o problema econômico, porque os agricultores não conseguiam preços melhores, por problemas com higiene no processo de produção. Geili explicou que o empreendimento, para acessar novos mercados e, para que o consumidor possa adquirir um produto de qualidade, os agricultores precisavam obter o registro da vigilância sanitária e respeitar a legislação ambiental: “Me sinto muito feliz e contente pelo reconhecimento. O projeto está sendo aceito e o nosso maior objetivo é que os agricultores, que trabalham com a mandioca, possam acessar esse conhecimento e melhorar suas unidades”.
Edicássio de Jesus, que também foi um dos premiados, desenvolveu um projeto voltado para comunidades quilombolas, com o tema Saberes e Sabores da Chapada Diamantina, Histórias e Encantos das Comunidades Quilombolas, com o objetivo de proporcionar o turismo étnico para essas comunidades: “Foi em 2º lugar minha premiação e eu estou muito satisfeito, por esse trabalho que já venho desenvolvendo há um tempo, que também é o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da minha Especialização em Gestão e Desenvolvimento Territorial. Para mim o reconhecimento é gratificante e mais uma etapa vencida”.