Mapas da sociobiodiversidade revelam o lugar e o papel da mulher na propriedade familiar

20/07/2021

O segundo encontro virtual do seminário Cadernetas Agroecológicas: Tecendo Saberes e Vivências, realizado na última sexta-feira (16), foi marcado pela apresentação dos Mapas da Sociobiodiversiadade, ferramenta utilizada para evidenciar a atuação da mulher agricultora na propriedade familiar. Os mapas foram construídos por agricultoras de comunidades rurais dos 32 municípios da área de abrangência do Pró-Semiárido, projeto do Governo do Estado, executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa vincula à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), com cofinanciamento do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

Os mais de 200 participantes do evento virtual puderam conhecer o cenário onde essa mulher está inserida, as principais atividades que ela desempenha no agroecossistema, seja no cuidado das plantas, hortaliças e frutíferas, com os animais, no roçado ou relacionadas ao trabalho doméstico, assim como a sua participação na renda familiar. A partir da aplicação dessa metodologia, também foi possível perceber a sobrecarga de trabalho advinda das multitarefas desempenhadas pela agricultora e a falta de divisão nas atividades domésticas com os demais familiares, ainda, quase que exclusivamente, sob domínio feminino.

Durante o seminário, oito estudos de caso foram apresentados por entidades de Assessoramento Técnico Contínuo (ATC), parceiras do Pró-Semiárido, o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (Sasop), a Associação de Assistência Técnica e Assessoria aos Trabalhadores Rurais e Movimentos Populares (Cactus) e a Cooperativa de Consultoria, Pesquisa e Serviços de Apoio ao Desenvolvimento Rural Sustentável (Coopeser). Para a técnica da Cactus, Fabíola Góes, os Mapas permitem à agricultora se enxergar. “Ao se reconhecerem como protagonistas, as mulheres vão traçando estratégias individuais e silenciosas, mas já não aceitam mais continuar nesse patamar de acúmulo de trabalho e sem o devido reconhecimento”, assinalou.

A engenheira agrônoma Tamara Lacerda, ao falar da experiência da Coopeser, destacou que a metodologia para elaboração dos Mapas auxilia na gestão da propriedade familiar, pois sinaliza o que está dando certo, em quais áreas a mulher está dedicando maior parte do seu tempo e da sua força de trabalho, como também o que precisa ser melhorado.

Os Mapas da Sociobiodiversidade desaguam nas Cadernetas Agroecológicas, ferramenta metodológica utilizada pelo Pró-Semiárido, que permite à agricultora fazer a gestão daquilo que ela produz, consome, vende e troca, e da renda monetária e não monetária gerada por ela. Após a adoção dessas metodologias, as mulheres passam a visualizar o resultado do seu trabalho de outra forma, é o que relata a agricultora Eliene das Virgens, da comunidade Brejo do Carrasco, em Pilão Arcado: “Antes tudo que chegava em casa a gente achava que era fruto do trabalho do homem, mas quando a gente desenhou esses mapas, percebeu o quanto as tarefas são divididas, o quanto a gente participa na renda da família”.

A diversidade da produção tocada pelas agricultoras e as práticas adotadas por elas no dia a dia na roça também foram representadas nos Mapas. Sobre esses pontos, a pesquisadora e assessora da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), Maria Emília Pacheco, pontuou: “As mulheres estão ressignificando a agroecologia! Elas estão ampliando o sentido de economia, demonstrando que economia se faz por relações. As experiências são reveladoras de histórias, de vivências, de protestos e é muito importante perceber tudo isso. É preciso deixar claro que o licuri só chega na alta gastronomia, por exemplo, porque a mulher está lá na roça colhendo. É preciso visibilizar este trabalho”.

O último encontro do seminário Cadernetas Agroecológicas: Tecendo Saberes e Vivências será realizado na próxima sexta-feira (23), a partir das 8h30, pela plataforma Zoom, e refletirá os resultados econômicos após um ano de pesquisa sobre a utilização das Cadernetas Agroecológicas por agricultoras do Pró-Semiárido.



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