O Governo do Estado, por meio do Projeto Pró-Semiárido, realizou o quarto e último módulo da capacitação sobre o LUME - Método de Análise Econômico-Ecológica de agroecossistemas, que propõe um novo olhar sobre a avaliação dos resultados produtivos da agricultura familiar com base agroecológica. A metodologia foi aplicada em 41 agroecossistemas do Semiárido baiano, atendidos pelo projeto Pró-Semiárido, executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR/SDR), empresa vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), cofinanciado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).
Nessa primeira amostragem, foi possível verificar não só a viabilidade da produção da agricultura familiar agroecológica, como também a eficiência do método, ao descortinar aspectos não considerados pelas metodologias tradicionais de avaliação da economia agrícola. “As metodologias tradicionais de avaliação não dão conta de processos e questões importantes que envolvem a agricultura familiar. O LUME veio com a capacidade de nos apontar o que realmente mudou na realidade das pessoas após as intervenções realizadas, revelando aspectos que sempre buscamos compreender”, assinala o coordenador do Pró-Semiárido, César Maynart.
Para Maynart, o LUME não é apenas uma ferramenta para aferir resultados, mas se constituiu como uma metodologia eficiente para avaliação de projetos ligados à agricultura familiar. “O método apresenta toda condição de reprodutibilidade e base científica necessárias para que possa ser aplicado em outros projetos”.
Diferente dos métodos de monitoramento e avaliação utilizados na agricultura tradicional, o ponto de partida do LUME é o olhar para a renda não monetária que está relacionada com a força do trabalho, humano e da natureza, e não para o valor bruto econômico alcançado pela propriedade. “A economia agroecológica não abre mão da sua autonomia e, partindo desse princípio, passamos a traduzir os números e entender se a rota estabelecida aponta para autonomia ou dependência do agroecossistema”, explica Paulo Petersen, da coordenação executiva da AS-PTA, organização responsável pela concepção do LUME e pelas capacitações.
Mas o que LUME revela? – Ao colocar luz sob aspectos ocultados pela visão mercantilista e neoliberal da economia agrícola tradicional, focada estritamente no capital, o LUME avalia os níveis de autonomia, responsividade entre subsistemas, a integração social das famílias, além da equidade de gênero e protagonismo da juventude. De posse dessas informações, é traçado o perfil do agroecossistema. Neste sentido, números que sinalizem, por exemplo, para uma rentabilidade negativa podem não significar insucesso, se comparados a dados referentes a capacidade e autonomia da família em produzir o alimento que garantirá a sua segurança alimentar e nutricional ou outros indicadores que apontem para a saúde e o bem-estar dos/as agricultores/as.
“Os atributos apresentados pelo LUME estão em perfeita sintonia com as estratégias operacionais do Pró-Semiárido e com o serviço de ATC que utilizamos. Na sua análise econômica, são consideradas várias nuances do produto bruto e da renda bruta, ao avaliar o estoque, as trocas e doações, o autoconsumo e a venda para o mercado. Os métodos tradicionais de avaliação só levam em conta o que vai para o mercado, mas o que vai para o mercado é só uma parte”, destaca o subcoordenador do capital produtivo do Pró-Semiárido, Carlos Henrique Ramos.
A análise dessas nuances nos 41 agroecossistemas, objeto de estudo da capacitação, foi feita pela equipe técnica do projeto e das entidades de Assistência Técnica Continuada (ATC), quando foi possível reforçar a importância de se ter uma ATC atenta às particularidades de cada agroecossistema para prestação de um serviço individualizado e especifico. “A gente se baseava nos questionários produtivos e eles não conseguiam mensurar os resultados com essa amplitude”, afirmou Dilmo Sousa, coordenador da equipe de ATC da Associação de Pequenos Produtores de Jaboticaba (APPJ).
“É um marco para a Bahia ver um projeto com uma construção metodológica aprimorada como o LUME. Até o olhar da equipe sobre o projeto modificou, aprofundando a questão da agroecologia como política pública. Nós já incorporamos o LUME à nossa metodologia de trabalho”, observou Caê Leite, coordenador do SASOP – Serviço de Assessoria à Organizações Populares Rurais.
Próximos passos – Após a conclusão desta etapa formativa, o próximo passo é expandir a aplicação da metodologia nos territórios rurais atendidos pelo Pró-Semiárido, para se ter uma amostra significativa do Projeto. “A gente quer realizar uma avaliação holística, que nos apresente um retrato real do projeto, os resultados positivos e negativos alcançados”, conclui Carlos Henrique Ramos.
O coordenador do capital Produtivo do Pró-Semiárido acredita que “o LUME será fundamental nesse processo, pois servirá de base para se entender qual agricultura é praticada pelas famílias atendidas pelo Projeto, definir estratégias, a inserção nos grupos de interesse e para elaboração de novos projetos e ampliação dos serviços de ATC”.