As diversas utilizações do licuri, a partir dos saberes populares e primeiras comprovações científicas, foi um dos assuntos debatidos durante o VIII Workshop Potencial Biotecnológico - Diálogos entre conhecimento tradicional e científico. O evento, promovido pelo Núcleo de Bioprospecção e Conservação da Caatinga, com transmissão ao vivo pelo Canal NBioCaat Caatinga, do Youtube, segue até esta sexta-feira, com a participação de gestores públicos, especialistas de diversas áreas, professores, pesquisadores e estudantes de instituições de ensino e pesquisa e lideranças comunitárias.
Além do NBioCaat, o Workshop é promovido ainda pela Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), Instituto Federal Baiano (IFBaiano), Instituto Nacional do Semiárido (INSA), Comunidade do entorno do Parque Nacional do Catimbal, Coopes, Associação dos Agricultores Familiares da Serra do Agrodoia e Comitê da Reserva da Biosfera da Caatinga.
Nessa segunda-feira (15), primeiro dia do evento online, foi debatido o trabalho desenvolvido com o licuri nas comunidades que fazem parte da Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina (Coopes), com sede em Capim Grosso, e os primeiros resultados de pesquisas realizadas pelo Departamento de Bioquímica da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), para a comprovação de informações obtidas nessas comunidades, a exemplo da utilizações do licuri em fitoterápicos, fitocosméticos, na alimentação humana, no melhoramento de probióticos e até em bioinsumos, para a substituição de insumos químicos. Foram apresentados ainda alguns testes feitos para tratamento de patógenos em animais.
Wilson Dias, Mestre em Planejamento Territorial e diretor-presidente da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa pública vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), apresentou ações que vêm sendo executadas pelo Governo do Estado para preservar a Caatinga, a exemplo dos projetos Pró-Semiárido e Bahia Produtiva, que destinam recursos voltados para sistemas produtivos estratégicos, como o do licuri, além de ações voltadas para sociobiodiversidade, quilombolas e indígenas. Ele ressaltou a necessidade de se pensar no potencial econômico da Caatinga, incentivando a produção e produtividade em harmonia com o bioma, na perspectiva de agregar valor, considerando a preservação em paralelo à qualificação da produção.
"Procuramos estimular as associações e cooperativas a terem um olhar especial para a Caatinga, e pensar no quanto se pode agregar nas propriedades rurais se souberem trabalhar em harmonia com a Caatinga, preservando e qualificando a produção, como no caso do rebanho de caprinos, pensar o que pode ser feito além da criação, que tenha nas pastagens, a exemplo das frutas nativas, como o licuri e o umbu, e as forragens, utilizando mecanismos que podem até triplicar a renda desses produtores. Por isso, temos trabalhado no sentido de fortalecer a importância econômica da Caatinga, dando ênfase na segurança alimentar e nutricional, na geração de renda das famílias e no progresso que ela pode trazer para a economia local", destacou Dias.
A coordenadora do Núcleo e professora do Centro de Biociência, do Departamento de Bioquímica da UFPE, Marcia Vanuza da Silva, falou da necessidade de alinhar, cada vez mais, os saberes, que para ela são complementares: “Acredito que no pós-pandemia a bioeconomia venha com força, com uma economia sustentável e maior repartição de benefícios, diminuição da fome e projeção de igualdade de gênero, para essas mulheres guerreiras, sertanejas, que estão guardando e valorizando o que ainda resta da Caatinga", ressaltou Marcia Vanuza.
Com base nessa troca de conhecimentos entre os saberes tradicionais e populares e a pesquisa científica, foram apresentados resultados de pesquisas com a utilização do óleo de licuri, que comprovam os efeitos positivos quanto ao poder de hidratação, ação anti-inflamatória, cicatrizante, ajudando no reparo tecidual e antibactericida, além de ter apresentado bons resultados na proteção de material genético, em tratamento de animais.
Programação
O desafio de renovação dos licurizeiros, a importância de a academia ouvir e valorizar os saberes populares, entender e valorizar o bioma Caatinga, o empoderamento das comunidades tradicionais, o desenvolvimento sustentável e a preservação da Caatinga, a criação de pratos utilizando o licuri na formulação, a participação da Coopes em eventos internacionais para divulgar produtos como o óleo e o licuri caramelizado foram também temas abordados durante o evento online.
Participaram ainda do debate Aurélio José Carvalho, professor do Instituto Federal Baiano (IFBaiano), Bruno Santos, Doutor em Bioquímica Fisiologia e farmacêutico, e Talita Gilelly, doutora em Ciências Biológicas e cirurgiã-dentista.