Foto: Wilson Militão
Há 217 anos – 12 de agosto de 1798 - Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz Gonzaga e João de Deus se transformariam nos mártires de uma revolução que tinha como mote a liberdade, igualdade, a fraternidade para todos: a Revolta dos Búzios (1798-1799). A história destes quatro negros baianos e as circunstâncias da Revolta foram tema do Seminário Búzios África Real, organizado pela Escola Olodum no Pelourinho na tarde desta terça (11). O diretor geral da Fundação Pedro Calmon palestrou no evento, junto à pesquisadora e professora em História do Brasil colonial da UFBA, Patricia Valim e o economista do Ministério do Planejamento, Elias Sampaio. Na plateia, artistas, profissionais de diversas áreas e estudantes, que ouviram dos palestrantes relatos sobre a história da Revolta e um paralelo entre a mesma e a atualidade. Para o presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues, a história do Olodum se confunde com a história da Revolta dos Búzios, também conhecida como dos Alfaiates, Conjuração ou Inconfidência Baiana e ainda, Revolta dos Argolinhas. “O Olodum nasceu no Pelourinho, onde muitos avisos e boletins manuscritos eram colados nas casas para alertar a população do que estava por vir. A Casa do Olodum foi construída no mesmo ano da Revolta, em 1798 e ao longo dos anos temos construído a consolidação do 12 de agosto como uma data nacionalmente reconhecida”, frisou João Jorge. Em sua fala, o diretor geral da Fundação Pedro Calmon fez um comparativo entre as realidades da época e a atual, na Bahia, com destaque especial à violência propagada contra negros e aos movimentos negros organizados que buscaram e ainda buscam a transformação da sociedade. “Esses movimentos são formas de organização da comunidade negra e pessoas empobrecidas em busca do diálogo, da conciliação para alterar a maneira na qual o Brasil vem se desenvolvendo. Ainda temos a mesma insensibilidade daquela época como resposta, principalmente a nossa juventude negra. Parte dela, como aqueles quatro jovens, vem sendo empurrada e acusada de serem malfeitores, violentos, marginais por instituições oriundas ainda daquele período”, enfatizou. Zulu Araújo falou ainda de locais na cidade de Salvador que ainda hoje carregam nomes ligados à tortura produzida pela elite baiana à época, como a Praça da Piedade, o Largo dos Aflitos, a Rua do Cabeça, da Forca e o Campo da Pólvora. Quanto a isto, o presidente do Olodum, João Jorge, informou que irá aos vereadores negros da cidade para revogar estes nomes e dar vez aos nomes dos heróis negros. Na ocasião, o diretor da Fundação entregou à Escola Olodum a publicação em que consta os Autos da Devassa, documentos textuais, manuscritos originais produzidos e acumulados há 217 anos no processo da Revolta. “A Fundação reeditará esta publicação e esperamos que na data de 12 de agosto de 2016, nós possamos retornar a este Seminário, já com uma nova edição, corrigida, para disponibilizar a todos estes importantes registros”, anunciou Zulu, concluindo sua fala com um apelo ao público. “Precisamos construir os ideais que estes homens e mulheres propuseram em 1798, o que é possível com muito trabalho, unidade, coragem e sensibilidade para fazer o que for necessário”, frisou. A ideia foi compartilhada pelo presidente do Olodum, João Jorge: “Espero que este Seminário nos ajude a encontrar o caminho para os que acreditam que a Revolta dos Búzios está presente e que estes heróis não morreram em vão”. O acervo documental citado na matéria está disponível no Arquivo Público do Estado da Bahia e na Biblioteca Virtual Consuelo Pondé (www.bvconsuleoponde.ba.gov.br) .