As experiências da vida familiar negra e o cotidiano da escravidão na província da Bahia na segunda metade do século XIX foram os assuntos tratados no segundo módulo do curso de Ensino de História da Bahia, ministrado na tarde desta terça (11/08), na Biblioteca Pública do Estado (Barris). A aula ficou por conta da professora da Universidade Federal do Recôncavo (Ufrb), Isabel Cristina Reis. No total, participaram 80 ouvintes dentre estudantes, professores e pesquisadores, que ouviram aspectos do contexto privado dos negros das últimas décadas da escravidão brasileira.
Isabel Reis citou que, a respeito da família negra na escravidão, existem poucos estudos que tratam do tema de forma concentrada, existindo apenas referências parciais em obras tratando de assuntos mais amplos. Deste modo, em sua aula, Isabel mencionou para os ouvintes, pesquisas de intelectuais como Stuart Schwartz, Katia Mattoso, Anna Amélia Nascimento, João José Reis, Maria Inês Côrtes de Oliveira, Luiz Mott, e teses de doutoramento produzidas por brasilianistas, como a de Mieko Nishida.
No sentido de compreender os modos de vivência da população negra no contexto das últimas décadas da escravidão brasileira, Isabel Reis acrescentou: “É relevante discutir a forma como as mudanças sociais, econômicas e políticas do período influíram em seu cotidiano, nas esperanças e desesperanças de pessoas submetidas ou não ao regime de cativeiro”. Para mais, Isabel revelou que existiu uma situação “permissiva” na vivência entre cativos e não cativos: “Neste período, não foram poucos os indivíduos que faziam parte de famílias que vivenciaram a conflituosa dualidade cativeiro x liberdade. Eram cativos unidos de forma consensual ou legítima a pessoa livre ou liberta e escravizados com filhos já alforriados, ou nascidos depois da Lei do Ventre Livre”, exemplificou Isabel.
Doutora em História pela Universidade de Campinas (SP), Reis também explicou que muitos escravizados que ainda permaneciam na condição de cativos, tiveram que dividir os rigores impostos pelo regime de cativeiro com os seus familiares e parentes não escravos. “Ao observar os laços parentais entre escravizados e gente liberta e livre, assim como a interação entre escravizados e a sociedade, emergiu-se um vasto repertório de histórias, muitas vezes inusitadas, envolvendo os africanos e seus descendentes nesta condição”, pontuou.
Em paralelo, Isabel Cristina, disse que houve muitas rebeliões que fluíram num crescente aumento do contingente de africanos mobilizando-se em atitudes abolicionistas. “Vale lembrar, ainda, o aumento do contingente daqueles que se rebelavam radicalmente contra o sistema, cometendo crimes contra senhores e feitores, praticando suicídios e infanticídios, fugindo do cativeiro e fazendo com que as cidades do Recôncavo, sobretudo Salvador, se tornassem em refúgio de um grande número de cativos fugitivos dos engenhos”, finalizou Isabel Reis.
A professora do Instituto Federal da Bahia (Ifba), campus Juazeiro, Graziele Reis dos Santos, presente no curso, destacou a importância de assistir a palestra de Isabel Reis. “É fundamental estarmos nos atualizando, principalmente, sabendo de temas que geralmente passamos de forma rápida na graduação e no mestrado, desta forma, este curso é essencial para usarmos este conteúdo em sala de aula”. Já Lizandra Santana da Silva, professora da Universidade Federal do Recôncavo (Ufrb), campus Amargosa, frisou: “É um curso que reflete sobre a formação política e social da escravidão, mas com uma perspectiva atual, porque o racismo ainda é muito presente na sociedade. Então, rememorar o passado é lutar contra o preconceito presente”, explicou Silva.
Atividade - A aula é destinada a professores e estudantes de História e ocorrerá durante todo mês de agosto, sempre ministrada pela professora Isabel Cristina Reis, com novas abordagens do tema. As palestras acontecem sempre nas terças-feiras, das 13h30 às 17h30, na sala Kátia Mattoso, auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia.
CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.