Um dos maiores movimentos de caráter emancipacionista, republicano e abolicionista que ocorreu há 217 anos na Bahia, a Revolta dos Búzios - também conhecida como Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates (1798), foi relembrada na manhã de sexta-feira (18), com a instalação da réplica da bandeira do movimento social na Praça da Piedade, Centro de Salvador. O ato contou com a presença do governador Rui Costa, autoridades do Estado e líderes de organizações sociais que lutam em prol igualdade social e racial na Bahia.
A cerimônia homenageou os líderes do movimento histórico, além de reforçar à importância da revolta, organizada por negros, que almejavam a Independência do Brasil e o fim da escravidão. “Estamos reescrevendo a história para que o povo conheça de onde nós viemos, o que nós somos e o que queremos construir a partir do que nossos ancestrais fizeram no passado”, afirmou o governador Rui Costa.
A solenidade começou às 8 horas com o batuque dos tambores dos blocos afro Olodum e Ilê Aiyê, e ainda contou com recital de poesia do cantor Lazzo Matumbi. Quem esteve na praça presenciou o primeiro de muitos outros atos que ocorrerão na cidade, para o propósito de reafirmar o protagonismo de revolucionários negros que contribuíram de maneira significativa no desenvolvimento da democracia, não somente no estado mas em todo o território nacional.
“Vamos continuar o trabalho de dar visibilidade a personalidades e lideranças da história da Bahia que não constam nos livros. Esta é a primeira de muitas homenagens. Vamos batizar estações de metrô com os nomes dessas lideranças da história que construíram nosso povo”, prometeu Rui, ao lado dos secretários Jorge Portugal (Cultura) e Vera Lúcia Barbosa (Promoção da Igualdade Racial), do diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo, da educadora e líder comunitária e religiosa Makota Valdino, do presidente do bloco Ilê Aiyê, Vovô, e do presidente do bloco Olodum, João Jorge.
Com duas tiras azuis, uma branca, seis estrelas vermelhas no centro e a inscrição em latim “Surge, nec mergitur” (Apareça e não se esconda), a bandeira hasteada na Piedade se junta aos bustos de Manuel Faustino, Lucas Dantas, João de Deus e Luís Gonzaga, líderes da Revolta dos Búzios que foram enforcados e esquartejados no local. A praça agora passa a reunir elementos de reconhecimento à importância da luta que eles empreenderam em prol da liberdade e da cidadania.
De acordo com a secretária da Sepromi, Vera Lúcia, a iniciativa de hoje possui não somente grande valor simbólico, mas sobretudo de justiça e afirmação da luta do povo negro. “O governo cumpre um importante papel de reparação e reconhecimento a este processo relevante nos capítulos da histórica da Bahia, que teve quatro líderes negros como protagonistas perseguidos e mortos em consequência da trajetória de enfrentamento à escravatura e ao sistema político da época”, declarou a titular da Sepromi, que realizou o evento.
O argumento de que a historiografia brasileira deixou de lado a relevância da Revolta dos Búzios para o desembocar da Independência do Brasil também foi bastante sustentado durante o ato. “Essa revolta que aconteceu aqui na Bahia nunca foi ensinado nas escolas de uma maneira devida. É ressaltado a Conjuração Mineira, de Tiradentes, que não teve nem um terço da intenção e do avanço para o bem do povo do Brasil, como teve a Revolta dos Búzios”, criticou o secretário de Cultura, Jorge Portugal.
Ele frisou a busca aguerrida e destemida pelos direitos de cidadania que Manuel, Lucas, João e Luís tiveram a fim de conquistar os ideais de justiça como igualdade, liberdade e fraternidade. “Esses quatro homens deixaram o legado de tudo que conhecemos hoje como movimento social, movimento negro. Tudo começou em 1789. Eles trouxeram as bandeiras que ainda estão para serem conquistadas aqui no Brasil como o fim da escravidão. Houve a abolição da escravatura, mas ainda não há cidadania correspondente”, avalia o secretário da pasta de Cultura.
Para o presidente do Olodum, “falar da Revolta dos Búzios, é falar de liberdade, igualdade, fraternidade, salários iguais, oportunidades para as mulheres, democracia, república, e tudo que nos falta no dia de hoje”.
Símbolo
A bandeira da Revolta dos Búzios, hoje balançada pelos ventos na Praça da Piedade, é colorida com azul, vermelho e branco, em inspiração às cores da França, país que revolucionou o mundo no século 18 com ideais iluministas.
Embora exista ainda um grande debate historiográfico sobre a existência ou não de uma bandeira no movimento baiano de 1789, a professora de História do Brasil Colonial (Ufba), Patrícia Valim, explica que a existência da flâmula aparece pela primeira vez na obra de Francisco Borges de Barros, cujas informações não estão referenciadas. No entanto, o autor forneceu detalhes sobre ela que até o momento não foram encontrados, mas que fazem parte do imaginário coletivo.
“O hasteamento realizado nesta sexta trata-se inegavelmente de um ato simbólico de grande importância para a história da Bahia e do Brasil, especialmente a história de luta do povo negro e mulato, ao homenagear Lucas Dantas, Luiz Gonzaga, Manuel Faustino e João de Deus - homens livres, pobres e mulatos - que foram enforcados e esquartejados na mesma praça em 8 de novembro de 1799 porque fizeram política cadenciada pelas ideias de Liberdade e Igualdade”, reflete a educadora.
Via Expressa
João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino e Luís Gonzaga, os quatro mártires da Revolta dos Búzios, serão homenageados através da arte de Ray Vianna e João Teixeira, num monumento que será erguido na Via Expressa, com recursos na ordem de R$ 300 mil - viabilizados pelo Governo, através das Secretarias de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), da Educação (SEC) e da Cultura (Secult). A obra, selecionada através de edital, propõe interferir visualmente no cotidiano da cidade, contribuindo para construção do imaginário social sobre essa etapa da história da Bahia.
Fotos: Rosilda Cruz