No dia em que se completa 181 anos da Revolta dos Malês, o Arquivo Público do Estado – unidade vinculada à Fundação Pedro Calmon/ Secretaria de Cultura do Estado da Bahia – celebrou, na tarde desta segunda-feira (25), esse acontecimento marcante para a história baiana com a palestra “Revolta dos Malês: fontes e interpretações”, ministrada pelo professor e doutor em História João José Reis. No evento, Reis abordou de forma singular os acervos e documentações em árabe espalhados pelo Brasil afora, escritos pelos nagôs - negros mulçumanos organizadores da revolta.
Mas antes de destrinchar a relevância de manuscritos árabes e suas fontes, José Reis explicou como se desenvolveu o movimento na Bahia. “A Revolta dos Malês foi apenas uma das mais de 30 revoltas que aconteceram entre 1807 e 1835. Nesse período ocorreram diversas conspirações, como outras duas revoluções ocorridas em 1814 e 1816”, argumentou Reis, relatando que a Revolta dos Malês não foi a mais ameaçadora para o fim do regime escravocrata da época.
Ele explicou ainda que o insucesso e o abreviamento da Revolta dos Malês – que durou apenas entre 3 e 4h – se deu após uma denúncia antecipada às tropas do governo regente, que acabou frustrando os planos dos combatentes. O resultado: dezenas de africanos foram deportados à África, condenados a penas de açoite, prisão e morte.
No entanto, o professor José Reis destacou que a Revolta dos Malês é importante “sobretudo porque a documentação que existe sobre ela é uma das maiores sobre uma revolta escrava nas américas”. Ele exibiu uma série documental de manuscritos árabes devocionais, de cunho religioso como rezas e amuletos, além de outros documentos provenientes de interrogatórios que diziam respeito a processos judiciais, após a captura de militantes muçulmanos.
Legado
Entre as mais de 90 pessoas que encheram o auditório do APEB, o diretor da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo, foi um dos participantes que marcou presença. Na opinião dele, a Revolta dos Malês deixou dois legados para a população baiana. “No meu entendimento, a primeira herança deixada foi a busca pela diversidade religiosa. Afinal, a imposição de uma única religião foi uma das razões que levou à Revolta dos Malês. Os islâmicos não se conformaram em ter o catolicismo como imposição do Estado. O outro legado que destaco é da necessidade e importância da liberdade - na época lutava-se contra a escravidão. Já nos dias de hoje lutamos pela democracia”, enxerga Zulu.
Outra figura ilustre que marcou presença no evento foi o nigeriano e líder religioso sheik Ahmad Abdul, responsável pelo Centro Islâmico na Bahia. “Foi uma palestra bem interessante. Parabéns aos organizadores e ao professor João José Reis! Essa história não pode morrer, não tem como tirar do mapa. A Revolta dos Malês fez valer que a escravidão não é aceitável. Devemos lutar, sem violência, sem radicalismo, pela igualdade. Somos todos iguais”, pontuou Ahmad. Para o administrador Elielson Góes Lemos, que é muçulmano há nove anos, a Revolta dos Malês “foi um marco para na luta pela liberdade religiosa e direitos fundamentais”.
Acervo
Durante a palestra, o professor João José Reis citou o Arquivo Nacional e Instituto Histórico e Geográfico, ambas as instituições localizadas no Rio de Janeiro, além do Arquivo Público do Estado da Bahia, como detentores de documentos em árabe e em português acerca da Revolta dos Malês. Em referência ao Arquivo baiano, o local resguarda cinco maços de documentos textuais (manuscritos e impressos) produzidos e acumulados há aproximadamente 177 anos.
Os documentos totalizam o quantitativo de 6.273 páginas, em suporte de papel que, microfilmadas, resultaram em sete rolos de microfilmes. Os Anais do APEB divulgam, por meio da transcrição paleográfica dos autos, desde o ano de 1968, peças processuais judiciais e policiais referentes aos depoimentos dos malês presos em 1835.
Outra parte dessa coleção documental possui escritos árabes, a exemplo de amuletos protetores, cópias de rezas e de passagens do Corão. Vale destacar, como curiosidade, que no momento da insurreição, os malês utilizavam esses escritos dobrados e enfiados em bolsinhas de couro ou pano em volta do pescoço e nos bolsos. Os referidos amuletos constituíram-se em importantes peças processuais.
Dossiês
Quem quiser conhecer e se aprofundar na Revolta dos Malês, a Biblioteca Virtual Consuelo Pondé – órgão também ligado à FPC/SecultBA – disponibiliza 12 artigos de pesquisadores e historiadores. Acesse o link http://www.bvconsueloponde.ba.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=83
Arquivo Público – Com 126 anos, o Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), é a segunda mais importante instituição arquivística pública do país. Em seu extenso e rico patrimônio estão custodiados documentos produzidos e acumulados no período colonial, monárquico e republicano brasileiro, que são diariamente consultados por pesquisadores de todo Brasil e de outros países. Um acervo organizado e estruturado desde 1890, quando o então governador do Estado da Bahia, Manoel Victorino Pereira, por meio de Ato, criou o Arquivo Público.