Vovó Cici – Dedicação à memória, aos contos e à contação de histórias

17/03/2016

Nanci de Souza Silva. Ebomi Cici de Oxalá. Vovó Cici. Muitas formas de chamar a contadora de histórias que será homenageada no próximo domingo (20) – Dia Internacional do Contador de Histórias -, a partir das 10h, Parque São Bartolomeu (Subúrbio Ferroviário), no projeto Pedra de Encantaria: Encontro de Contadoras e Contadores de Histórias. O projeto, que será realizado pela Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura da Bahia e pela, em parceria com o Cardume – Coletivo de Contadores de História, já está em sua segunda realização será aberto ao público. No Espaço Cultural Pierre Verger, Vovó Cici trabalha com crianças em situação de alto risco e com pesquisadores da cultura afro-brasileira. Já se apresentou em diversas cidades brasileiras e também fora do Brasil, como em Cuba, França e nos Estados Unidos, com suas contações de histórias. Trabalhou durante muito tempo com o fotógrafo Pierre Verger, fazendo legenda para 11 mil fotografias ligadas à cultura afro-brasileira e a Benin, Togo, Gana, Nigéria e África do Norte. Saiba mais sobre o Encantaria neste domingo aqui. Conheça mais sobre Vovó Cici:

FPC – Como a Sra. se tornou uma contadora de histórias?
Vovó Cici -
A pessoa nasce com dom de contar história. Quando eu já tinha 21 anos, minha mãe teve mais dois filhos, um irmão e uma irmã, e fui eu quem cuidou deles da mesma forma como fui criada, ninando e contando histórias. Aprendi muito escutando e contando. Com o tempo, fui estudar, trabalhar e sempre lendo cada vez mais. Depois da minha iniciação no Candomblé, conheci as tradições, que são passadas enquanto estamos vivos e cada um conta a seu modo uma explicação da vida.

FPC – Como a ancestralidade negra influenciou e continua influenciando a sua contação de histórias?
Vovó Cici -
O griô existe desde o princípio do mundo, ele é responsável por não deixar determinada cultura morrer. Todos têm seus heróis e figuras importantes. Os contadores do iorubá são babalaôs, eles não deixam nossa história morrer. Pierre Verger fala em um de seus livros que os deuses foram homens que se transformaram pela sua força, inteligência. Aqueles que não deixaram nada enquanto vivos foram esquecidos, e os que deixaram algumas coisas são relembrados até hoje. A história do negro nasce dessa forma, e dessa história tiramos as vivências do cotidiano. Através da história você guarda aquilo que tem que passar. A gente nasce para manter uma tradição e tem que ter total responsabilidade sobre aquilo que se conta. Temos a responsabilidade de passar para as pessoas que, às vezes, apesar de desacreditarem, percebem que no fundo, essas histórias não são tão mitológicas e mágicas quanto elas pensam que são.

FPC – Qual a importância da contação de histórias para a formação de crianças e jovens?
Vovó Cici -
Quando conto para crianças, elas têm respostas que me surpreende e, assim, aprendo mais e mais. Todos os dias as crianças me ensinam como pensar, pois elas são capazes de chegar a lugares que os adultos não chegam através do mundo que eles vivem. Acho importante contar a história da nossa cultura dentro daquilo que se sabe. Infelizmente, só a cultura dominante é vista como a certa e, quando há algo diferente, mesmo com histórias tão bonitas de bondade e moral, não acreditam serem verdadeiras. Quando contamos uma história a uma pessoa, a depender da pessoa e da história, muitas das vezes ela vai conseguir encontrar as respostas para os seus problemas. Sempre tiramos uma coisa boa para gente nesse momento de ouvir, que é também de aprendizado.

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