Conversando com a sua História abordou movimento estudantil na Ditadura

23/08/2016
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Aspectos históricos, movimento estudantil no período ditatorial militar e experiências na militância política, foram temas abordados no Conversando com a sua História – projeto de iniciativa do Centro de Memória da Bahia – vinculado à Fundação Pedro Calmon/ SecultBa. Na segunda-feira (22), oi projeto recebeu o historiador, doutor em História e professor da Universidade Federal da Bahia, Maurício Brito, que traçou um panorama do movimento estudantil no contexto do golpe de 1964.

Na ocasião, Maurício destacou a importância de falar sobre o tema do Conversando com a sua História em agosto. “É uma oportunidade de religação com a memória política do país. É um período que não é uma página virada, e para virar esta página, é preciso escrever nela”, disse o historiador. “Há algumas lacunas na história que são importantes de serem salientadas. Como a matança dos povos indígenas e as agressões às pessoas LGBTTTIQA’s. A historicidade e a literatura vêm mostrando que a tortura foi parte sistemática da ditadura, diferente do que os militares afirmavam que era um desvio”, disse Maurício.

Pesquisa - A motivação para pesquisar o tema surgiu de ordem política, já que o historiador participou dos movimentos estudantis secundaristas e universitários, onde se deu conta da dificuldade de mobilização estudantil. “A ditadura militar é a referência que temos de movimentação estudantil no país. Então parti do pressuposto de estudar o passado para compreender o presente”, disse o palestrante. Com o recorte de 1964 e 1968, o historiador se ateve a estudar os movimentos que surgiram na então Universidade da Bahia, que ainda não era federalizada.

“Entre os estudantes, havia o questionamento à falta de assistência estudantil, de transparência financeira e críticas às questões estruturais da Universidade. A democratização do acesso à Universidade estava em pauta, já que apenas 1% da população entrava no meio acadêmico; bem como crítica ao tipo de produção de conhecimento no meio acadêmico e a serviço de quem esse conhecimento era produzido. Os estudantes tinham um posicionamento diferente e acreditavam na conexão de serviços da Universidade à comunidade”, disse o historiador. Além disso, a falta de democracia na Universidade, que era autoritária e reproduzia relações autoritárias em seu interior, e a falta da participação estudantil nas decisões da instituição, também eram criticadas pelos estudantes.

Fontes - Os jornais A Tarde e Jornal da Bahia, foram fontes importantes do historiador, além de fontes orais que eram buscadas através do catálogo telefônico e as atas das reuniões estudantis que ocorrem na época. “Vale lembrar que não havia apenas movimentos de resistência à ditadura, mas também de apoio ao regime. As faculdades de Medicina e Direito, por exemplo, emitiram moções a favor do golpe, glorificando os militares que vinham para trazer democracia e livrar o país do comunismo. Até mesmo a própria Universidade se posicionava dessa forma em 1964, em documentos assinados pelo Reitor. Uma possível interpretação desse fato é que essas moções eram escritas justamente para não atrair militares à Universidade, como aconteceu com a UnB [Universidade de Brasília], que foi invadida”.

“É importante conhecermos o passado da Universidade que estamos estudando, bem como o contexto histórico que envolvia aqueles acadêmicos, no sentido da mobilização estudantil”, disse Ricardo Freitas, estudante de História. Já a contadora Helena Dantas, contou que costuma sempre assistir às palestras e rodas de conversa sobre a Ditadura Militar: “foi um período muito complicado para todos. Eu vivi isso de perto e entendo toda a mobilização que havia por trás. Muitos dados só estão sendo revelados agora, e é importante nos atualizar sobre a história do nosso país”.

O próximo CSH será na segunda-feira (29), com a doutora em História pela UFBA, Cláudia Trindade, que falará sobre “O Centro de Documentação da Penitenciária Lemos de Brito e sua contribuição para o resgate da trajetória de ex-presos políticos da Galeria F”.

CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.

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