Emiliano José encerrou Conversando com a sua História com relatos de sobre a Ditadura

01/09/2016

No último Conversando com a sua História (CSH) Especial sobre Ditadura Militar na Bahia, ocorrido na quarta-feira (31), o Doutor em Comunicação, jornalista e escritor Emiliano José, apresentou sua experiência como militante político e pesquisador dos temas relacionados à Ditadura, publicados na série “Galeria F”, que conta sua experiência como prisioneiro durante quatro anos na Penitenciária Lemos de Brito. Na ocasião, ele apresentou o tema “Memórias do Subsolo: histórias de um tempo de esperança e dor”. O Conversando é de autoria do Centro de Memória da Bahia – unidade vinculada à Fundação Pedro Calmon/ Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

O jornalista iniciou a palestra falando sobre o panorama político atual brasileiro, ressaltando o processo e a finalização do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. “Um povo que não conhece o seu passado, não conhece também o seu presente e está sob o risco de repetir os mesmos erros. O golpes não se fazem mais com armas e tanques, mas com aparelhamento político e judiciário como pudemos notar hoje”, disse o jornalista se referindo ao afastamento da presidenta e ainda ressaltou que “as marcas que a Ditadura deixou durante todo esse tempo, foram consolidadas hoje”.

Luta - Emiliano José participou intensamente do movimento estudantil secundarista na década de 60 em São Paulo, e se tornou um dos diretores da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). O jornalista ainda pertenceu à Ação Popular, organização revolucionária que enfrentou a Ditadura Militar no Brasil. Com a edição do Ato Institucional 5, em dezembro de 1968, foi perseguido, tornou-se clandestino e acabou preso na Galeria F da Penitenciária Lemos de Brito durante quatro anos. “Só quem já foi torturado e quem foi preso sabe o que isso significa. Essa experiência não pode ser passada de uma pessoa para outra. O momento da tortura é o momento limite da existência humana. A tortura não é algo desumano, pelo contrário, é algo que é somente humano. Ali a carne grita, sangra, se dilacera e pede para que você ceda para que a dor passe. O pingar dos dias na cadeia é torturante”, disse Emiliano José.

Sobrevivência - O jornalista ainda destacou que “é evidente que a Ditadura deixa marcas e não há como esquecer pelo resto da vida, elas estão inscritas em seu corpo e sua alma. A Ditadura Militar marcou toda uma geração deixando rastro de sangue real, nas torturas, violências e mortes. As feridas ficam adormecidas, mas não propriamente cicatrizadas. Volta e meia elas dão sinais de realidade. Eu me cobri com uma grande couraça sobre o meu corpo no período de enfrentamento da Ditadura, e posteriormente tive de manter essa couraça, que me fez resistir e seguir na luta, ou não sobreviveria.”

“Emiliano José é a memória viva da Ditadura Militar. Não há como falar sobre as consequências do regime da Bahia sem falar sobre ele e suas publicações”, disse o estudante de História, Cléber Souza. “Nesses últimos tempos, vimos muita gente querendo a volta da Ditadura Militar, mas o que falta para essas pessoas é informação e conhecimento da nossa própria história. O que aconteceu no passado, se repete hoje e vai continuar a se repetir enquanto não conhecermos o nosso passado”, disse a historiadora Carla Pereira.

Publicações – Emiliano José escreveu diversos livros referentes à Ditadura Militar, dentre eles, “As asas invisíveis do padre Renzo”, “Lamarca: o capitão da guerrilha” em parceria com o jornalista Oldack de Miranda, “Marighella - O inimigo número um da Ditadura Militar” e a coleção “Galaria F, Lembranças de um Mar Cinzento”, que terá o seu quinto volume lançado ainda este ano. “Muito do que eu escrevo e produzo em relação à Ditadura tem a ver com um processo de catarse que faço ao longo da vida. Como diz Walter Benjamin, me propus a tarefa de falar pelos mortos, assassinados e desaparecidos, para que possamos dar continuidade ao sonho deles”.

Visita

Emiliano José visitou o acervo custodiado pelo Centro de Memória da Bahia junto ao diretor da unidade, Rafael Fontes e coordenadores. Há cinco anos, por meio de emenda constituída pelo jornalista, foi possível montar os laboratórios de restauro e digitalização de acervos históricos e produzir o Dicionário Histórico e Biográfico da Bahia, que visa a elaboração de 200 verbetes de personalidades públicas do Estado (deputados, senadores, governadores, secretários) ao longo do período republicano. O Dicionário tem finalização e lançamento previstos para dezembro de 2016. 

Fotos: Laísa Costa e Amanda Moreno

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