“Desafios de Centros de Documentação voltados para o recolhimento de acervos privados de interesse público” foi o tema do Conversando com a sua História de segunda-feira (19), no auditório do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. De autoria do Centro de Memória da Bahia – unidade vinculada à Fundação Pedro Calmon/ SecultBA, o CSH recebeu a coordenadora do Programa de Arquivos Pessoais (PAP) do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Daniele Amado; e o diretor do CMB, Rafael Fontes.
Iniciando a palestra, Daniela Amado falou sobre o CPDOC e sobre o (PAP): “O CPDOC foi criado em 1973 e hoje é uma Escola de Ciências Sociais da FGV. Tem objetivo de abrigar conjuntos documentais relevantes para a história do país, além de desenvolver pesquisas e promover cursos de graduação e pós-graduação. Os conjuntos documentais constituem o mais importante acervo de arquivos pessoais de homenspúblicos do país, com cerca de 200 fundos e um total de 1,8 milhão de documentos”.
O CPDOC se divide em dois projetos: o Programa de História Oral, que recolhe depoimentos de personalidade que atuaram no cenário nacional e conta com mais de 5 mil horas de gravação em quase 1 mil entrevistas; e o PAP, que tem objetivo de reunir, organizar e divulgar o acervo de arquivos privados doados ao CPDOC. O PAP é pioneiro na definição de uma metodologia para o tratamento de arquivos pessoais, possuindo uma base de dados própria, o Accessus, desenvolvido pela instituição em 2000.
“O CMB e o CPDOC são instituições muito diversas, mas que dialogam no mesmo sentido, de arquivar e disponibilizar ao público o acervo. O CPDOC é referência nacional em salvaguarda de documentos. A palestra acontece no sentido de discutir um horizonte para o CMB, pois completamos ontem (18) 30 anos e sentimos necessidade de repensarmos que tipo de documentação e que tipo de Centro de Memória queremos ser”, disse Rafael Fontes.
O diretor do CMB destacou que um dos desafios recebidos pela instituição no ano passado foi a abertura da linha de caracterização de acervo para um contexto mais amplo. “Temos três campos que dialogam entre si: cultura, arte e política, mas estes não eram articulados como deveria. Além disso, temos alguns memoriais voltados para as artes, mas que ainda não tinham um tratamento arquivístico e uma descrição adequada”, contou Rafael.
Na ocasião, Daniele Amado falou sobre alguns desafios encontrados no recolhimento e disponibilização dos acervos privados: “temos uma política de representação, difusão e disponibilização do acervo na web, que é também muito procurado por estrangeiros, então temos uma grande preocupação em disponibilizar o acesso livre a todos. Temos um projeto chamado ‘URLS’ amigável, que permite acesso aos documentos sem a necessidade anterior de fazer cadastro no site, além disso, na ficha de acesso, há botões de compartilhamento das redes sociais”.O PAP ainda conta com uma ‘conservação preventiva’, que, de acordo com Daniele, há uma triagem do que será digitalizado a partir do que é mais procurado na sala de consulta pelos pesquisadores, para evitar digitalização de arquivos que não são buscados. “O documento não é apenas digitalizado, há uma avaliação do que precisa ser restaurado antes, e inserimos informações que auxiliam na compreensão do documento. Fizemos estudos e pesquisa de como controlar e monitorar os arquivos, até mesmo para verificarmos se algum arquivo está corrompido”, disse Daniele. Para facilitar ainda mais o acesso, foi desenvolvido um aplicativo da FGV onde é possível ter acesso aos documentos do CPDOC.
Rafael Fontes fechou a palestra destacando que: “o objetivo desse encontro é pensarmos de fato numa política pública de acervos privados pessoais e a formação de uma rede que beneficie a todos. O papel do CMB é ser um polo de articulação de acervo, quer estejam alocados no CMB ou em outra instituição”. “Acompanho sempre as palestras do CSH e o tema me interessa porque penso em trabalhar em museus e bibliotecas. Meu curso de história não me fornece uma formação adequada sobre acervos, então sempre participo de palestras e faço minicursos”, disse o estudante de história, Marcos Joanito Silva. Já o estudante de história Leonardo Ferreira, destacou que “gosto de participar das palestras, pois tenho informações aprofundadas sobre o tema, e absorvo muito conteúdo e conhecimento na área”.
Centro de Memória da Bahia – O diretor Rafael Fontes, destacou que “O CMB foi criado com objetivo de guardar acervo dos governadores da Bahia, então chegaram acervos muito pessoais, como cartas de/para familiares, e de relações políticas desses governadores.” Atualmente, o CMB possui três coordenações: o Memorial dos Governadores; a Casa Afrânio Peixoto, em Lençóis; e uma coordenação interna dividida em três: Acervos Privados; Documentação e Pesquisa; e Coordenação Técnica.
Na semana passada, o Centro de Memória da Bahia recebeu seus dois primeiros acervos privados artísticos-culturais: da coreógrafa, pesquisadora e professora de Dança, Lia Robatto, que em breve será disponibilizado para o público, já que chegou ao CMB em estágio avançado de descrição arquivística por ter sido contemplado em edital, e o do seu esposo, o fotógrafo Silvio Robatto. Atualmente, há outros acervos culturais em processo de doação ao Centro de Memória da Bahia que serão divulgados em breve.
Bio – Rafael Fontes é historiador e gestor cultural, mestre em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Foi pesquisador do Laboratório de História e Memória da Esqueda e das Lutas Sociais da UEFS, dirigente municipal de Cultura de Irará (BA), e analista em gestão cultural da SecultBA. Desenvolve estudos relacionados à política e o campo cultural, especialmente partidos e militância política de esquerda e a cultura popular e afro-brasileira.
Daniele Amado é doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), mestre pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e especialista em História Contemporânea pela mesma universidade. Coordenadora do Projeto de extensão “Café com arquivo: o documento em debate”, fruto da parceria entre o Departamento de Estudos e Processos Arquivísticos da UNIRIO e a Coordenação de Documentação da Escola de Ciências Social/ CPDOC da FGV.
CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.
Conversando com a sua História debateu acervos privados de interesse público
20/09/2016