A Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o Instituto Cultural Brasil Alemanha (ICBA) como instituições abertas à cultura e difusoras da mesma, contribuindo para o campo cultural baiano durante o período ditatorial militar, foi pauta do Conversando com a sua História, na última segunda-feira (10). O Conversando é um projeto de autoria do Centro de Memória da Bahia – vinculado à Fundação Pedro Calmon/ SecultBA e inaugurou a série de debates com tema sobre Memórias Contemporâneas: Espaços Livres da Cultura nos anos 70.
Esta nova etapa propõe propiciar encontros de personagens que vivenciaram este período histórico do Brasil e promover discussões sobre as influências de instituições educacionais e culturais na formação do campo cultural artístico baiano da segunda metade do século 20. Participaram da primeira mesa da serie, o professor aposentado da Faculdade de Comunicação da UFBA, cineasta e diretor, Guido Araújo; o alemão que esteve à frente do ICBA durante quase duas décadas, Roland Schaffner; e o vice-reitor da UFBA, Paulo Miguez. O debate foi intermediado pela professora do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade e professora do Instituto de Humanidades Artes e Ciências prof. Milton Santos-IHAC/UFBA, Marilda Santana.
Formador de gerações de cineastas baianos, criador e à frente da Jornada Internacional de Cinema da Bahia - um dos acontecimentos cinematográficos mais importantes do país que deu visibilidade às produções locais, durante 39 edições, Guido Araújo, contou sua trajetória de trabalho ao lado do ICBA, onde se desenvolveu o projeto. “Comecei minha trajetória em 1950 quando participei da primeira sessão do Clube de Cinema da Bahia, o cineclube formado por Walter da Silveira. O Roland Schaffner foi um grande incentivador da Jornada, além de movimentar diversos outros tipos de artes no campo cultural de Salvador durante sua gestão no ICBA”, disse Guido Araújo.
Oficinas para atores, diretores e coreógrafos, cooperativas artísticas, barracas para montagem de cinema e núcleo de vídeo, são apenas algumas das ações promovidas pelo ICBA, também conhecido como Goethe-Institut, durante a gestão de Roland Schaffner. “O Instituto engendra uma abertura produtiva da cultura local com objetivo de ampliar, promover e incentivar a arte e a cultura, além de dar continuidade ao que já existe A lista de atividades artísticas e culturais que aconteceram naquela época é extensa. Houve o grupo de percussão Baiafro, que visava a conscientização da valorização da cultura negra; o teatro étnico Palmares Ynãron; o Interarte, de artes visuais; o desenho animado com Chico Liberato; o Intercena”, disse o gestor. Ao sair da gestão do ICBA, Roland escreveu o livro com suas experiências interculturais ‘Memoráveis paixões transculturais: euroafromeríndia’, que estabelece a interculturalidade entre Brasil, Índia e Alemanha, e retoma as atividades culturais realizadas nestes locais entre os anos 1966 e 1999.
Além de vice-reitor, Paulo Miguez é doutor em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela UFBA, professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC) e do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade, ambos da mesma instituição. No debate, Miguez falou sobre o chamado “vazio cultural” dos anos 1970: “o esvaziamento cultural não é a ausência de eventos culturais, e sim o não reconhecimento dela. Houve instalação da lógica da indústria cultural, da cultura midiatizada. Mas essa era a cultura letrada, paralelo a isso, sempre houve efervescentes manifestações de cultura popular e festas religiosas, por exemplo.”
“É muito interessante saber que estes locais foram de grande resistência cultural e que influenciaram muito várias gerações de baianos. Eram locais que promoviam a cultura sem preconceitos, aceitavam o que era novo, diferente, a contracultura”, disse a produtora cultural Vânia Freitas. Nesta mesma linha, o mestrando Ricardo Farias relembrou que “os militares acreditavam que não podiam exercer qualquer limite ao que se fazia ali, por ser um espaço internacional, então o local era um céu para os artistas naquele momento de censura cultural”.
Memorias Contemporâneas - “Esse debate revela a faceta destes espaços, que foram muito importantes no âmbito da cultura e política. São espaços de resistência, onde se manifestaram diversas expressões artísticas e multiculturais”, disse o diretor da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo, na abertura do evento. O diretor do CMB, Rafael Fontes, falou sobre o projeto Memórias Contemporâneas: “O projeto é uma série de entrevistas e bate-papos com pessoas que foram atuantes nesse cenário na Bahia. Pensamos principalmente na contribuição, nos espaços que formaram esse polo cultural baiano, e percebemos que é no ICBA e na UFBA onde formam-se o germe da produção do campo cultural baiano”.
CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.