Roberto Mendes é cantor, compositor, violonista e arranjador. Mas é o fato de ter nascido no município de Santo Amaro que ele mais se orgulha em falar. Ao longo dos seus 40 anos de carreira, consta em seu currículo nove álbuns solos e centenas de composições, que reforçam seu carinho pelas palavras, pelas pessoas e é claro, pela música, seja o clássico do MPB ou no samba chula ou no samba de roda. Mas seus versos também são encontrados nos seus dois livros. E através deles fica registrado a sinceridade e clareza de Roberto, que se define como um "sem meias palavras". Confere o #FPCEntrevista com ele, que vai estrear o projeto “O Violão e a Palavra”, da Fundação na Flica, próximo dia 15:
#FPCEntrevista - Você é bem conhecido pelo orgulho de ser santo amarense e pela relação que desenvolve com o local. Quais destes aspectos você considera essencial para consolidação destes 40 anos de carreira?
Roberto Mendes - Se eu não fosse santo amarense, me mataria. Pretendo continuar dizendo sempre onde nasci. A maior sorte que dei na minha vida foi continuar a vida inteira refém da minha memória, principalmente do lugar onde nasci. Vivo de memória. Eu tenho a idade da minha terra, nasci em 1557. A cultura da minha terra é a regra de comportamento. Não tem coisa melhor do que conviver com as heranças e costumes que geraram o seu sotaque. Vivo eternamente apaixonado pela encruzilhada étnica que me formou como gente, como pessoa.
#FPCEntrevista - O violão, instrumento que te acompanha por décadas, e a palavra, algo no qual você tem total domínio de uso. O próprio tema do projeto te define. Você pode falar um pouco mais sobre estas duas habilidades que possui?
Roberto Mendes - A vida inteira eu toquei e vivi com o violão. Na minha casa, todos tocavam. Sou caçula, então, minha relação com meu pai foi sempre a do encontro do sábio com a sabedoria. Por ser caçula, vivi pouco tempo com meu pai, ele morreu quando eu tinha 13 anos, a compreensão e a aventura marcaram a nossa relação. Ele estava já se encontrando, enquanto eu estava saindo do casulo, pulando pedras. A nossa relação era um choque, porque meu pai estava na fase da compreensão, e eu, na fase da descoberta. Vivi a vida inteira nesse conflito, mas meu pai esteve sempre me orientando com a sua sabedoria. Muito cedo eu virei homem, casei com uma mulher da minha terra, tive três filhos e vou morrer casado. Sou apaixonado pela frequência da minha vida. Eu, na realidade, sou músico e minha poesia vem do canto. Acabei virando artista por causa de Jorge Portugal. Foi ele quem inventou a minha cabeça do pensar, pois eu era puramente emocional - continuo sendo até hoje. Minha relação com a razão se perdeu quando eu descobri a relação matemática. Eu era apenas um ser humano racional. Agora, estou me despedindo da frequência inteligente, da razão, para entrar mais nos sensitivo, na alma. Eu vejo que, hoje, estou muito mais vivo do que estava antes. Por tudo isso, então, eu acho que a minha escrita hoje vem mais da oralidade, não do pensamento racional. Estou mais ligado à poesia do que à palavra substantiva.
#FPCEntrevista - Como você recebeu o convite para participar do Violão e a Palavra?
Roberto Mendes - Fiquei emocionado porque eu fiz um programa com Jorge que, na verdade, seria outra coisa. Aí, alguém não pôde ir e o convidado foi Zulu. Eu fiquei extremamente emocionado e sugeri a Portugal pra a gente ir às ruas, tocar nas esquinas. Foi quando Zulu me chamou e, quando eu cheguei lá, era esse projeto. Eu acho que já estava com ele na minha cabeça e alguém veio e o antecipou. Eu fiquei muito feliz por o terem criado. Um dia eu faria esse projeto, talvez não com esse nome, e aí alguém veio e me antecipou, me poupou esse trabalho. Tomei um susto quando Zulu começou a falar sobre o projeto.
#FPCEntrevista – Muita expectativa, então?
Roberto Mendes - Para mim, Portugal é uma das maiores invenções. Sou invenção dele, fui construído por ele, e fazer um programa com ele e Zulu, que, para mim, é a historia viva da herança africana da Bahia, é algo incrível. Zulu caminha por essa aérea de forma impressionante, e eu não sei muita coisa do que ele fala. Somos da mesma época, da mesma idade, da mesma geração, sentimos e choramos as mesmas dores, mesmas lembranças e, mesmo assim, me impressiono com seu conhecimento. O programa se tornou um lucro maior pra mim do que pra quem vai assistir. Eu poderia ficar o dia inteiro tocando violão e conversando com eles, até mesmo preso em um quarto qualquer.