07/11/2016
Há muito tempo me incomoda ver a palavra cantada ser diminuída em sua dimensão poética. Há muito tempo nós da Fundação Pedro Calmon estamos perseverando a realização de uma série que seja um misto de debate e aula show sobre o tema. Para melhor descrever seu viés popular a denominamos de “O violão e a palavra”."Precisamos mesmo criar uma “sociedade de leitores”, até porque, somente pela leitura poderemos assegurar a plena realização da condição humana. Mas o mundo contemporâneo nos impõe um universo alucinante de signos a interpretar, de leituras possíveis. Não bastasse isso, a língua se manifesta de diversas maneiras, não só na literatura romanceada ou na poesia. A língua está na música, no cinema, na televisão, na publicidade, no jornalismo, no teatro, no rádio, na internet e a cultura em muito mais. Em todos os casos, esperando por leitores ou ouvintes, por quem lhe interprete. Continuamos pensando a arte como no século XIX. A arte no mundo contemporâneo está em toda parte. Este também é o caso da poesia. Ela está no blog, na camisa, no outdoor. Ela não se contenta mais com o livro. Não podemos continuar a elitizá-la ou aprisioná-la como belas artes, ou como alta e baixa cultura, nem estigmatizar a arte popular como artesanato, senso estético diz a todos. Nunca é demais lembrar o poeta Oswald de Andrade: “a massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”.
Não me conformo que versos como: “A minha pele de ébano é.../A minha alma nua/Espalhando a luz do sol/Espelhando a luz da lua/Tem a plumagem da noite/E a liberdade da rua/Minha pele é linguagem/E a leitura é toda sua”, escrita pelo nosso poeta/secretário, Jorge Portugal, em parceria com Lazzo Matumbi na canção Alegria da Cidade, não mereçam o respeito e o status estético que tem a palavra escrita quando organizada em versos. Faço questão de aqui mencionar estes versos e seu autor por ter sido ele um dos convidados a discutir este assunto ao lado de Roberto Mendes (duas expressões do Recôncavo, estudiosos da música que se faz na Baía de Todos-os-Santos) protagonizando, mediados pelo jovem escritor e professor de literatura Saulo Dourado, a primeira edição desta série que pelo sucesso alcançado ricos debates prometem. Estreamos a série “O Violão e a Palavra” semana passada na Feira Literária de Cachoeira – Flica.
Não poderia haver melhor dupla para o que se queria; naquele local e naquele contexto: um professor de português e literatura de renomada experiência como animador de TV, além de poeta e compositor de música popular convidado para debater o assunto com seu parceiro, a quem a Bahia e o Brasil devem uma das mais ricas pesquisas etnomusicais da chula e do samba de roda do Recôncavo, raízes de nosso samba. Além disso, Roberto é um virtuose ao violão, compositor gravado por muitos nomes famosos.
Por ironia do destino a premiação de Bob Dylan acendeu este debate precisamente na véspera de nossa estreia. Toda palavra tem música. Está na natureza dela. Toda palavra tem ritmo e melodia. É no texto que ambas se harmonizam. A poesia pode ser lida em silêncio, em voz alta, declamada ou cantada que a musicalidade dela sempre ressoará. É verdade que podemos destiná-la a alguns contextos e meios, ou até “suportes”, e a eles adaptá-la,mas nada disso lhe retira beleza nem lhe reduz a grandeza estética. Esta semana, o romancista José Eduardo Agualusa em sua coluna em O Globo nos brindou com uma pérola a propósito deste tema e da premiação a Dylan: “Toda a poesia ambiciona ser canção; quando não ambiciona provavelmente não é poesia”.
Zulu Araújo - diretor geral da Fundação Pedro Calmon/SecultBA

