A violência sexual contra a mulher é tema da poesia “Predestinada”, que recebeu menção honrosa na categoria Poesia Ensino Médio do III Concurso de Escritores Escolares. A obra foi escrita pela estudante Jéssica Loyane Lustosa Pereira, 17, do 3º ano no Colégio Estadual Nossa Senhora Aparecida, em Formosa do Rio Preto, no extremo oeste baiano.
A poesia trata dos estupros sofridos pelas mulheres em todo o mundo, não importando a idade da vítima, o local e a forma como o crime ocorre. De acordo com dados do 9º Anuário de Segurança Pública, em 2014, 47.600 pessoas foram estupradas no Brasil, o que equivale a uma vítima a cada 11 minutos.
Esse número pode ser maior, pois a pesquisa leva em conta apenas casos registrados em boletins de ocorrência, estimados em apenas 35% do montante real. A maturidade literária de Jéssica fica clara na utilização de palavras fortes e certeiras sobre o tema:
“Tive minhas roupas rasgadas
Minha pele arranhada
As pernas afastadas
A alma dilacerada em uma plena escuridão.”
“Eu gosto de escrever sobre temas atuais, principalmente contos e poesias”, contou Jéssica, que ainda completa: “diariamente muitas mulheres passam por isso, é preciso falar sobre esse assunto, pois ainda é um tabu. Muitas pessoas não falam por causa da vergonha ou do medo, mas todo mundo conhece alguém que já foi violentada. Na poesia é um pouco mais fácil de falar sobre o assunto”. Conheça “Predestinada”:
Predestinada
Fui estuprada essa manhã
E também noite passada
Essa tarde não foi diferente
Também fui violenta.
Pelo meu pai, meu avô
Meu namorado, um falso amigo
Um professor, meu padrasto.
Um homem qualquer,
Sou eu a menina que sonha
A senhora carente
A criança inocente
A moradora de rua
A meretriz indecente
Fui estuprada na rua, no metrô
Ao ar livre e em prisões.
Em chão frio, em camas quentes
De todas as formas e posições.
Tive minhas roupas rasgadas
Minha pele arranhada
As pernas afastadas
A alma dilacerada em uma plena escuridão.
Eu agonizava e ele sorria
Eu gritava de dor, e ele sentia prazer.
Quem me estuprou
tinha tesão pelo meu sofrer.
Fui rebaixada ao nada
E depois de abusada
Usada
Violentada
Maltratada
Fui abandonada.
Bem além de lesões corporais
O que já é grave o suficiente
Eu fui invadida
E não me sentia gente.
Eu disse que não queria.
E ele me disse grosseiramente
"VOCÊ QUER"
E fui explorada outra vez.
Quem sou eu?
Eu sou mulher!
Foto: Acervo Pessoal